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Alemanha: após naufrágio eleitoral, Merz consegue sobreviver como chanceler?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

A coalizão de Friedrich Merz perdeu 40 cadeiras no Bundestag. Com a direita alternativa crescendo e a economia estagnada, o chanceler liberal enfrenta o maior teste de sua liderança. A pergunta que ecoa de Berlim a Paris é se ele conseguirá se segurar no cargo ou se novas eleições são inevitáveis.

O chanceler alemão Friedrich Merz (CDU/CSU) amanheceu nesta sexta-feira, 19 de setembro de 2026, com o telefone vermelho silencioso e as pesquisas de aprovação em queda livre. Nas eleições federais do último domingo, a União Democrata-Cristã despencou para 21% dos votos, uma perda de 10 pontos percentuais em relação ao pleito anterior, segundo dados oficiais da Comissão Eleitoral Alemã. O resultado deixou a coalizão liderada por Merz com apenas 198 assentos no Bundestag – insuficiente para garantir uma maioria estável sem alianças improváveis.

A catástrofe eleitoral foi amplamente atribuída à gestão errática da crise energética e ao aumento da carga tributária sobre empresas. Em publicação nas redes sociais, o economista-chefe do Instituto Ifo, Clemens Fuest, afirmou que “as políticas de Merz traíram o eleitorado liberal que o levou ao poder em 2025”. O chanceler tentou equilibrar compromissos com o Partido Verde e a ala social-democrata, mas acabou desagradando a todos.

Para entender a profundidade do colapso, é necessário recuar até janeiro de 2025, quando Merz assumiu com a promessa de “libertar a economia alemã do jugo burocrático”. Ele prometeu cortes de impostos, desregulamentação e um endurecimento na política migratória. No entanto, em menos de um ano, cedeu à pressão dos sindicatos e manteve o imposto sobre heranças elevado, além de não conseguir conter o avanço da Agenda 2030 da União Europeia, que impõe metas ambientais custosas para a indústria alemã.

A situação atual é um paradoxo político: Merz lidera um governo que, teoricamente, é de centro-direita, mas suas ações foram percebidas como um continuísmo do consenso de Berlim. A Alternativa para a Alemanha (AfD) e o novo partido Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW) surfaram o descontentamento, somando juntos 35% dos votos. Esse bloco antissistema, embora incapaz de formar governo, tornou qualquer maioria tradicional inviável.

**Por que isso importa para a França**

O colapso do governo Merz não é uma notícia alemã – é um terremoto para toda a zona do euro. Paris depende de Berlim para coordenar políticas fiscais, conter a imigração ilegal e sustentar o pilar franco-alemão da União Europeia. O presidente francês, Emmanuel Macron, já manifestou preocupação em conversas privadas, conforme reportagem do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. “Uma Alemanha instável significa uma Europa paralisada”, afirmou um analista do Centro de Estudos Europeus de Bruxelas em entrevista à rádio France Inter.

O mercado reagiu com volatilidade. O índice DAX caiu 3% na segunda-feira, e o spread dos títulos alemães em relação aos franceses atingiu o maior nível desde 2023. Investidores temem que Merz, acuado, recorra a medidas populistas de curto prazo – como subsídios maciços às indústrias do leste – em vez de aprofundar as reformas estruturais de que a Alemanha precisa.

**Análise FORTIS: o liberalismo de Merz morreu na praia**

Ao contrário da narrativa de que a Alemanha “virou à direita”, o que se viu foi uma punição eleitoral a um político que prometeu livre-mercado e entregou mais do mesmo. Merz teve a oportunidade histórica de cortar o Estado inchado, eliminar a rigidez trabalhista e abrir caminho para a inovação. Em vez disso, optou por uma “grande coalizão” de fato com os verdes, mantendo a burocracia ambiental e aumentando gastos com transferências de renda.

O resultado é uma tragédia para os liberais clássicos. A CDU perdeu o eleitorado urbano jovem para o FDP – que também caiu abaixo da cláusula de barreira – e o eleitorado industrial conservador migrou para a AfD. Merz ficou no meio do espectro, sem base sólida. Em uma declaração à imprensa alemã na quarta-feira, o deputado conservador Jens Spahn disse: “Nosso partido está pagando caro por governar como social-democratas de terno azul-marinho”.

**Contraponto: a difícil arte de governar em minoria**

Há quem argumente que Merz não merece toda a culpa. A economia alemã já vinha em desaceleração desde 2023, agravada pela guerra na Ucrânia e pela desindustrialização do setor automotivo. A CDU herdou um déficit orçamentário de 60 bilhões de euros e uma dívida pública que ultrapassou 70% do PIB. Com uma oposição radicalizada e a mídia mainstream pressionando por mais gastos sociais, qualquer chanceler teria dificuldade em implementar o liberalismo radical.

Em entrevista à revista Spiegel, o estrategista político Wolfgang Hiersche afirmou: “Merz está entre a cruz e a caldeirinha. Se tenta reformas profundas, perde a esquerda do partido. Se não reforma, perde a direita.” A pergunta real é se ele conseguirá sobreviver a um voto de confiança no Bundestag, que pode ser convocado já na próxima semana pela oposição.

O cenário mais provável, segundo analistas do Instituto Schumpeter, é que Merz negocie um acordo de tolerância com o Partido Liberal Democrático (FDP) e com dissidentes do Partido Verde, formando um governo minoritário frágil. Mas isso significaria uma agenda ainda mais diluída. Nas palavras de um alto funcionário do Ministério das Finanças, em condição de anonimato ao jornal Handelsblatt: “Estamos governando com um pé no acelerador e outro no freio.”

Enquanto isso, a França observa tensa. Se Merz cair, novas eleições podem trazer a AfD como segunda maior força – algo que Paris nunca experimentou nas relações bilaterais. O pior de todos os mundos para a Europa seria uma Alemanha ingovernável em plena crise energética.

**1. Merz pode ser substituído por outro líder da CDU sem novas eleições?**

Sim, teoricamente. A CDU pode escolher um novo líder de bancada e indicar outro chanceler, como aconteceu em 1982 com Helmut Kohl. No entanto, isso exigiria uma maioria no Bundestag, o que parece improvável dadas as divisões internas. O presidente do partido, Friedrich Merz, resiste a renunciar, conforme nota oficial da CDU divulgada na quinta-feira. O nome mais cotado para sucedê-lo é o do atual ministro da Economia, Carsten Linnemann, mas ele também está desgastado.

**2. Qual o impacto imediato para os mercados financeiros franceses?**

O CAC 40 já sofreu perdas de 2% nesta semana, e o euro caiu para US$ 1,03. A agência Moody’s emitiu alerta sobre possível rebaixamento da nota de crédito alemã – o que afetaria diretamente os bancos franceses expostos a títulos alemães. Especialistas recomendam cautela com ativos europeus até que o cenário político em Berlim se clarifique.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.