A imagem é conhecida, mas nunca foi tão precisa: a Alemanha, que já foi o motor industrial do continente, agora é oficialmente o “homem doente da Europa”. A expressão, cunhada na década de 1990 e agora resgatada pelo editorialista do Le Figaro, Philippe Gélie, não é exagero retórico – é a constatação crua de um paciente em estado terminal de estatismo. Enquanto isso, a imprensa mainstream francesa e alemã ainda insiste em tratar o problema como um mero soluço conjuntural, como se a crise do modelo alemão fosse apenas uma consequência da pandemia ou da guerra na Ucrânia. Não é. É o resultado de décadas de políticas econômicas equivocadas, de um apego doentio ao consenso e de uma recusa ideológica em abraçar o que realmente funciona: liberdade econômica, inovação e responsabilidade fiscal.
O diagnóstico de Gélie, publicado na edição de 19 de setembro de 2026, é direto: a Alemanha está presa a um círculo vicioso de desindustrialização, envelhecimento populacional e paralisia política. O país, que já foi sinônimo de excelência manufatureira, viu sua produção industrial encolher 2,1% no último trimestre, enquanto a economia como um todo estagnou, com um crescimento anual de apenas 0,3%. O desemprego, que era a vitrine do milagre alemão, voltou a subir, atingindo 6,8% – o maior nível em uma década. E o orçamento, que o ministro das Finanças, Christian Lindner, prometeu equilibrar, segue refém de uma dívida pública que ultrapassa 2,6 trilhões de euros. O que se vê é um país paralisado, onde a coragem de reformar foi substituída pelo medo de desagradar a base eleitoral.
O contexto é ainda mais sombrio quando se olha para as engrenagens políticas. A coalizão do chanceler Olaf Scholz, formada por social-democratas, verdes e liberais, desmoronou sob o próprio peso. As pesquisas mais recentes, divulgadas pela ARD no início de setembro, mostram a aliança com apenas 32% dos votos, enquanto a oposição conservadora da CDU/CSU lidera com 38%. Mas a alternância de poder, no atual cenário alemão, não representa uma mudança de rota – é apenas uma troca de cadeiras no mesmo navio que está afundando. O problema não é a cor do governo, mas o próprio modelo: a Alemanha se tornou um país de burocratas e rentistas, onde a burocracia estatal consome 28% do PIB e a carga tributária sobre as empresas atinge 42%, uma das mais altas da OCDE. Em vez de incentivar o empreendedorismo, o governo alemão prefere subsidiar setores obsoletos, como a indústria automotiva, que perdeu o bonde da eletrificação para os chineses.
Por que isso importa? Porque a Alemanha não é uma ilha. É a maior economia da zona do euro e a principal parceira comercial do Brasil na Europa. Quando a Alemanha espirra, a França pega uma gripe, a Itália vai para a UTI e Portugal, a Espanha e a Grécia precisam de respiração artificial. A Comissão Europeia já rebaixou a previsão de crescimento da zona do euro para 2026 para 1,1% – bem abaixo dos 2,5% dos Estados Unidos. E o Fundo Monetário Internacional, em seu relatório de julho, alertou que a desaceleração alemã pode reduzir o PIB global em 0,5% ao ano até 2030. O que acontece em Berlim não fica em Berlim; reverbera em Brasília, em Buenos Aires e em toda a cadeia global de suprimentos. Para o Brasil, que depende das exportações de manufaturados e commodities para a Europa, uma Alemanha estagnada significa menos demanda, menos investimento e mais desemprego no curto prazo.
A análise da FORTIS NEWS é direta: o diagnóstico de Gélie está correto, mas a solução que ele sugere – reformas estruturais, redução da burocracia e fim dos subsídios estatais – é apenas o começo. O que a Alemanha precisa, na verdade, é de uma revolução liberal. Isso significa, em primeiro lugar, a eliminação do imposto sobre heranças, que hoje trava o capital produtivo nas mãos de famílias empreendedoras. Em segundo lugar, a redução da jornada de trabalho para 35 horas semanais, sem redução salarial, como forma de aumentar a produtividade – uma medida que já foi adotada com sucesso em setores dinâmicos como o de tecnologia. Em terceiro lugar, a criação de um sistema de saúde baseado em contas de poupança individual, como o de Singapura, que daria aos cidadãos o controle sobre seus gastos e eliminaria o desperdício. E, por fim, a adoção de uma política de imigração baseada em mérito, nos moldes do Canadá, que atrairia os melhores cérebros do mundo e compensaria a queda demográfica. Essas medidas não são apenas viáveis – são essenciais para que a Alemanha volte a ser a locomotiva que já foi.
É claro que há quem discorde. Os sindicatos alemães, que representam 23% da força de trabalho, veem qualquer reforma como um ataque aos direitos adquiridos. Eles argumentam que a redução da jornada de trabalho e a flexibilização das leis trabalhistas levariam a uma corrida para o fundo do poço, com cortes de salários e perda de direitos. Mas essa é a mesma retórica usada na década de 1990, quando a Alemanha aprovou a Agenda 2010, um pacote de reformas que reduziu o desemprego de 11% para 4,5% em uma década. A diferença é que, agora, os sindicatos estão mais fracos e a população, mais velha e conservadora, resiste a qualquer mudança. O que eles não percebem é que a estagnação é o pior inimigo dos trabalhadores – é ela que destrói empregos e aprofunda a desigualdade. A Alemanha precisa de mais mercado, não de menos.
Por Renan Filho · 2026-09-21