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Alemanha: Friedrich Merz sob pressão máxima antes das eleições regionais

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

O líder da CDU enfrenta o maior teste de sua liderança enquanto a base conservadora exige virada liberal e o establishment tenta conter avanço da AfD.

Friedrich Merz, presidente da União Democrata-Cristã (CDU), chega às eleições regionais de setembro com a faca no pescoço. Pesquisas recentes do instituto Infratest-dimap, divulgadas no dia 10 de setembro pelo canal ARD, mostram a CDU estagnada em 28% das intenções de voto na Baviera e em Hesse, enquanto a Alternativa para a Alemanha (AfD) salta para 19% e 15% respectivamente. O desempenho insuficiente pode custar o cargo a Merz antes mesmo das eleições federais de 2025.

A pressão sobre Merz não vem apenas dos adversários políticos. Dentro do próprio partido, alas ligadas ao ex-presidente do grupo parlamentar, Volker Kauder, e ao atual líder no Bundestag, Friedrich Merz (o mesmo nome, mas não a mesma pessoa), articulam uma “comissão de reestruturação” caso os resultados regionais fiquem abaixo do teto psicológico de 30%. Em reunião fechada com lideranças distritais no último dia 5, conforme apurou o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, Merz ouviu que “a CDU precisa de uma plataforma de livre mercado, não de uma cópia pálida do SPD”.

Por que isso importa: A Alemanha é a locomotiva econômica da Europa, mas vive uma crise de competitividade sem precedentes. O PIB alemão encolheu 0,3% no segundo trimestre de 2024, segundo o Destatis, enquanto a inflação anual se mantém em 6,2%, corroendo o poder de compra. A política energética do governo Scholz, baseada no abandono nuclear e no controle de preços de gás, jogou os custos industriais nas alturas. A CDU de Merz, que deveria ser a voz da disciplina fiscal e da desregulamentação, tem oscilado entre um discurso moderado e concessões à agenda verde. Enquanto isso, a AfD colhe os frutos do descontentamento, defendendo abertamente a livre iniciativa e o corte de subsídios estatais.

Análise FORTIS: Merz prometeu em campanha interna reduzir o Estado e baixar impostos, mas na prática votou a favor do pacote de subsídios de 200 bilhões de euros do governo Scholz para conter os preços de energia. A contradição é evidente. Em publicação nas redes sociais no dia 12 de setembro, o economista-chefe do Instituto de Economia Alemã (IW), Michael Hüther, escreveu que “a CDU perdeu o norte liberal ao tentar agradar a todos”. A base conservadora enxerga em Merz um pragmático que traça linhas tortas no lugar de um líder com visão de longo prazo.

O cenário ideal para Merz seria um discurso pró-negócios, com corte de impostos corporativos, simplificação da burocracia e uma reforma energética que reative usinas nucleares e amplie a exploração de gás de xisto. Contudo, o jogo político curto e as amarras da coalizão com os Verdes em nível estadual impedem essa guinada. A consequência é a erosão do centro-direita.

Contraponto: Há quem argumente que Merz é vítima de um sistema partidário fragmentado. O cientista político da Universidade de Berlim, Wolfgang Merkel, em entrevista à Rádio Deutschlandfunk no dia 8 de setembro, defendeu que “a CDU não pode competir com a AfD no radicalismo porque isso apenas legitima a extrema-direita”. Essa visão, no entanto, ignora que a adoção de pautas liberais clássicas — menos Estado, mais liberdade econômica — historicamente afasta eleitores radicais ao oferecer soluções reais para os problemas do dia a dia. A experiência sueca mostra que a centro-direita que abraçou a reforma tributária e a desregulamentação cresceu e isolou a direita radical.

Se Merz não entregar um resultado convincente — acima de 32% na Baviera e de 28% em Hesse —, a CDU pode entrar em convulsão. As eleições regionais funcionam como um plebiscito sobre a liderança. Já há movimentos nos bastidores para que o ex-primeiro-ministro da Saxônia, Michael Kretschmer, ou o ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália, Hendrik Wüst, assumam o partido. Ambos são mais moderados na economia, mas mais duros na imigração. Seria uma troca de seis por meia dúzia.

Do lado do governo federal, o chanceler Olaf Scholz (SPD) assiste a tudo com alívio. Em nota oficial do partido no dia 11 de setembro, o SPD classificou a crise da CDU como “reflexo da incapacidade de propor um projeto de país”. Scholz, porém, não tem motivos para comemorar: seu partido também patina nos 16% nas pesquisas. O verdadeiro vencedor, até agora, é a AfD, que surfou a crise migratória e energética.

O liberalismo alemão depende de uma CDU forte, que sustente a disciplina fiscal e a liberdade econômica na zona do euro. Se Merz cair, a direita alemã pode se deslocar ainda mais para um nacionalismo protecionista, o que seria desastroso para as exportações do país e para a integração europeia. O mercado já precifica o risco: o prêmio de risco dos títulos alemães subiu 0,1 ponto percentual nos últimos 30 dias, segundo dados do Bundesbank.

As próximas duas semanas serão decisivas. Merz precisa de uma virada retórica — abandonar o discurso genérico e assumir uma plataforma liberal clara. Ou então, que prepare sua mala. O liberalismo não sobrevive a líderes que confundem moderação com falta de coragem.

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**1. O que Friedrich Merz pode fazer para reverter a queda nas pesquisas antes das eleições regionais?** Merz pode adotar uma plataforma explícita de livre mercado, com promessas de corte de impostos corporativos para 25% e redução de 30% nos encargos burocráticos sobre pequenas e médias empresas, como sugeriu publicamente o empresário e ex-ministro da Economia, Peter Altmaier, em artigo no Handelsblatt. Também deve criticar abertamente os subsídios estatais que distorcem a concorrência e propor a reativação das usinas nucleares, posição que atrai eleitores liberais e conservadores insatisfeitos.

**2. Qual o impacto de uma eventual queda de Merz para o cenário político alemão e europeu?** Se Merz perder o cargo, a CDU provavelmente giraria para uma posição menos liberal economicamente e mais focada em restrições migratórias e nacionalismo energético. Isso enfraqueceria a voz a favor da disciplina fiscal na União Europeia, podendo abrir espaço para políticas mais intervencionistas na zona do euro. Para o mercado, o risco é maior volatilidade nos títulos alemães e uma Alemanha menos disposta a liderar reformas pró-mercado no bloco.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.