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Internacional

Alemanha: extrema direita vence no nordeste e acende alerta em Berlim

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu com folga a eleição regional em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste do país, em um pleito que escancara o desgaste do establishment político e a insatisfação com as políticas migratórias e energéticas do governo federal.

A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu com folga a eleição regional em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste do país, em um pleito que escancara o desgaste do establishment político e a insatisfação com as políticas migratórias e energéticas do governo federal. Com 31,5% dos votos, segundo projeções oficiais divulgadas na noite de domingo, o partido de direita radical consolidou sua posição como principal força no estado, superando o Partido Social-Democrata (SPD), do chanceler Olaf Scholz, que amargou o pior resultado de sua história na região, com apenas 13,2%. A vitória, embora simbólica em um estado que representa menos de 2% da população alemã, é um terremoto político que ecoa em Berlim e em toda a União Europeia.

O resultado não é um acidente isolado, mas a culminância de anos de políticas centralizadoras que ignoraram as demandas locais. Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é um dos estados mais pobres da Alemanha, com renda per capita 20% abaixo da média nacional, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica de Munique (Ifo). A região, que já foi um polo industrial na era da Alemanha Oriental, sofre com o êxodo de jovens e a dependência de subsídios federais. Foi nesse cenário de abandono que a AfD, liderada localmente por Nikolaus Kramer, construiu sua base, explorando o descontentamento com a transição energética que elevou os custos de energia e com a imigração que, na visão dos eleitores, sobrecarregou os serviços públicos.

A vitória da AfD, contudo, não se traduz em poder imediato: nenhum outro partido aceitou formar coalizão com a legenda, isolando-a no parlamento estadual. Mas o recado está dado. Em declaração à imprensa na noite de domingo, a copresidente da AfD, Alice Weidel, classificou o resultado como "uma derrota histórica para o governo federal" e prometeu que o partido "não descansará até devolver a soberania ao povo alemão". Do outro lado, o secretário-geral do SPD, Kevin Kühnert, admitiu o revés, mas tentou minimizar o impacto: "Não vamos normalizar a extrema direita. Vamos trabalhar com mais afinco para reconquistar a confiança", disse o parlamentar em entrevista à Rádio Deutschlandfunk.

Para além das manchetes, o que esse resultado revela é o fracasso do consenso de Berlim em lidar com as dores reais da população. O governo Scholz, uma coalizão de social-democratas, verdes e liberais, apostou em uma agenda de gastos sociais e descarbonização que, na prática, inflou a dívida pública e não gerou o crescimento prometido. Enquanto isso, a economia alemã estagnou no segundo trimestre de 2026, com um PIB que encolheu 0,1%, conforme dados do Destatis, o escritório federal de estatísticas. A política energética, que forçou o fechamento de usinas nucleares e a dependência de carvão, elevou os preços de eletricidade para pequenas e médias empresas, que já não conseguem competir globalmente. A AfD, com seu discurso de livre mercado e crítica à burocracia de Bruxelas, surfou nessa onda.

**Por que isso importa**

A eleição em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é um teste de estresse para a estabilidade da maior economia da Europa. A vitória da AfD não é apenas um fenômeno regional: ela sinaliza uma tendência que se espalha pela antiga Alemanha Oriental, onde o partido já é a principal força em três dos cinco estados da região. Em setembro, a Turíngia e a Saxônia também vão às urnas, e as pesquisas indicam que a AfD pode vencer ou ficar em segundo lugar, o que forçaria os partidos tradicionais a formarem coalizões frágeis e instáveis. Para o presidente francês, Emmanuel Macron, que já enfrenta a ascensão do Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen, o cenário é um déjà vu: a União Europeia, que já foi o motor de integração, agora vê seus pilares serem corroídos por forças nacionalistas de dentro.

**Análise FORTIS**

Sob a ótica liberal, o que se vê na Alemanha é uma reação previsível ao intervencionismo estatal. O estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é um exemplo clássico de como o excesso de regulação e a má gestão pública sufocam a iniciativa privada. Em vez de criar um ambiente de negócios atrativo, com cortes de impostos e desburocratização, o governo federal optou por subsídios e transferências de renda, que geraram dependência e ressentimento. A AfD, embora com um discurso por vezes contraditório em questões sociais, acerta ao diagnosticar o problema: a população local não quer esmolas, quer autonomia. O livre mercado, com sua capacidade de alocar recursos de forma eficiente, é a única saída sustentável para a região, mas isso exige coragem política que a coalizão de Scholz claramente não tem.

**Contraponto**

Críticos, no entanto, alertam que a AfD não é um partido liberal de fato. Em seu programa, a legenda defende maior controle estatal sobre a economia, com subsídios para setores estratégicos e protecionismo comercial, o que contraria os princípios de livre comércio. Além disso, a postura do partido em relação à Rússia, com críticas às sanções e defesa da compra de gás barato de Moscou, levanta questões sobre sua confiabilidade em um cenário geopolítico tenso. Para esses analistas, o voto na AfD é mais um grito de desespero do que uma adesão consciente ao liberalismo, e a direita radical pode, no poder, adotar políticas tão intervencionistas quanto as da esquerda que critica. O risco, portanto, é que a Alemanha troque um establishment ineficiente por um populismo que, no fim, agrave os problemas que diz resolver.

Enquanto isso, a economia alemã segue em um beco sem saída, e a classe política parece incapaz de oferecer uma alternativa convincente. A vitória da AfD no nordeste é um aviso de que a paciência do eleitor tem limites, e que o caminho para a recuperação não passa por mais Estado, mas por mais liberdade econômica. A pergunta que fica é: quanto tempo levará para Berlim entender essa lição?

**Pergunta 1: A vitória da AfD no nordeste alemão significa que a Alemanha vai sair da União Europeia?**

Resposta: Não imediatamente. A AfD defende uma reforma da UE para devolver poderes aos estados-membros, mas não tem maioria para promover uma saída (o chamado "Dexit") e, mesmo que vencesse as eleições federais, precisaria de apoio popular em um referendo, o que é improvável no curto prazo. No entanto, o partido pode usar sua influência para bloquear avanços na integração europeia, como a emissão conjunta de dívida ou a expansão de competências de Bruxelas, o que já seria um problema para a agenda de Macron e dos países do sul da Europa.

**Pergunta 2: Quais são as principais propostas econômicas da AfD para o nordeste da Alemanha?**

Resposta: A AfD propõe a redução de impostos para empresas e pessoas físicas, o fim da política de cotas de energia renovável que encarecem a conta de luz, e a renegociação das regras de imigração para aliviar a pressão sobre os serviços públicos. No plano regional, o partido defende a atração de investimentos privados com zonas de livre comércio e a redução da burocracia para pequenos negócios. Contudo, especialistas apontam que muitas dessas propostas conflitam com a legislação federal e europeia, e que a AfD ainda não apresentou um plano detalhado de financiamento, o que levanta dúvidas sobre sua viabilidade prática.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.