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O cerco à imprensa: France Insoumise quer submeter a mídia ao Estado — e o caso Sapin é só o começo

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

A esquerda radical francesa, liderada por Jean-Luc Mélenchon, aproveita o escândalo envolvendo o ex-ministro Michel Sapin para avançar uma agenda de controle estatal sobre veículos como France Inter e BFM TV. Sob o pretexto de 'pluralismo', o que se desenha é a cartilha do dirigismo midiático.

O chamado Affaire Sapin — que envolve acusações de tráfico de influência e uso político da máquina pública durante a gestão do ex-ministro socialista Michel Sapin — virou combustível para um novo e perigoso movimento na França. Desta vez, o alvo não são apenas políticos corruptos, mas a própria liberdade de imprensa.

Em publicação nas redes sociais no último domingo, a coordenadora nacional da France Insoumise (LFI), Manon Aubry, afirmou que 'a mídia privada, como a BFM TV e a France Inter, age como partido político disfarçado de jornalismo'. A declaração veio acompanhada de uma proposta concreta: submeter os grandes veículos a um 'conselho de supervisão cidadã' com poder de veto sobre linhas editoriais e contratações.

O contexto não poderia ser mais preocupante para quem defende o livre mercado de ideias. O Affaire Sapin — que expôs conluios entre agentes públicos e empresários — serve de pretexto para que a LFI generalize a acusação de que 'a imprensa é cúmplice do sistema'. Em entrevista à rádio France Info, o deputado François Ruffin disse que 'os jornalistas que defendem o mercado são tão corruptos quanto os políticos que o servem'.

Por que isso importa? Porque a França, embora seja uma democracia consolidada, já possui um dos ambientes midiáticos mais regulados da Europa Ocidental. A Arcom (autoridade reguladora de comunicação) já interfere em fusões, nomeações e até no conteúdo de canais públicos. O que a LFI propõe é um salto qualitativo: estender esse controle a toda a imprensa privada, sob o argumento de que 'a informação não pode ser mercadoria'.

Na prática, a medida significaria que um conselho nomeado politicamente — com forte presença de sindicatos e partidos de esquerda — poderia questionar a linha editorial de um jornal ou a escalada de um âncora. Em nota oficial divulgada na quinta-feira, o partido de Mélenchon defendeu que 'os meios de comunicação devem servir ao interesse público, não ao lucro de acionistas'. A frase ecoa o discurso de regimes autoritários que justificam o controle estatal em nome do 'bem comum'.

A análise FORTIS é cristalina: o que está em jogo não é o combate à corrupção, mas a substituição da liberdade editorial pela censura burocrática. O mercado de mídia, com toda a sua imperfeição, permite que diferentes vozes concorram por audiência e credibilidade. Quando o Estado dita o que é 'pluralismo', o resultado é o monopólio da verdade oficial.

Vale lembrar que a França já vivenciou experiências de controle midiático. Durante o governo de François Mitterrand, o Estado usou a sua participação em canais de TV para favorecer aliados. Mais recentemente, a Lei de 2021 que criou um 'imposto sobre plataformas digitais' já foi usada para pressionar grandes grupos de comunicação a alinhar discursos. O projeto da LFI é o passo seguinte: a estatização indireta da opinião.

Contraponto: os defensores da proposta argumentam que a concentração de propriedade da mídia nas mãos de bilionários — como Bernard Arnault (LVMH, dono do Les Échos) e Vincent Bolloré (Vivendi, controlador do grupo Canal+) — distorce o debate público. Para eles, a regulação estatal seria um antídoto ao 'poder oligárquico'. O próprio Mélenchon, em comício no último sábado, disse que 'não se pode deixar a informação nas mãos de quem lucra com a ignorância'.

O problema é que essa lógica ignora que a concorrência entre diferentes grupos econômicos — por mais imperfeita que seja — já oferece mais diversidade do que qualquer conselho estatal. Na prática, a proposta da LFI criaria um mecanismo de licenciamento político para jornalistas, algo que até a China abandonou em parte. A história mostra que, uma vez que o Estado define o que é 'informação de interesse público', a dissidência é a primeira a ser cortada.

O Affaire Sapin, portanto, não é a causa, mas a desculpa. A LFI sempre defendeu o controle estatal da economia e da comunicação. Agora, usando um escândalo real, tenta emplacar uma pauta que, em qualquer país livre, seria vista como autoritária. Cabe aos liberais franceses — e aos brasileiros que observam o debate — não confundir combate à corrupção com cerco à imprensa.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.