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Internacional

Xi Jinping viaja a EE.UU.: o "príncipe" que perdeu tudo antes de se tornar o líder mais poderoso da China

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

Em visita histórica a Washington, o presidente chinês reúne-se com Donald Trump em meio a tensões comerciais e militares. Antes de chegar ao topo do Partido Comunista, Xi sobreviveu a perseguições da Revolução Cultural e viu sua família ser destruída pelo regime que hoje comanda.

O presidente chinês Xi Jinping desembarcou em Washington nesta quarta-feira para uma reunião de dois dias com o presidente americano Donald Trump. O encontro ocorre em um momento de máxima tensão entre as duas maiores economias do mundo, com tarifas recíprocas sendo aplicadas e a disputa pelo controle do Pacífico Sul se intensificando.

A visita, anunciada há duas semanas pela Casa Branca, tem agenda fechada. Segundo comunicado oficial do Departamento de Estado, os líderes discutirão "comércio equilibrado, segurança regional e o futuro da inteligência artificial". Não há previsão de entrevista coletiva conjunta ao final do encontro.

O que muitos analistas ocidentais ignoram, no entanto, é a trajetória pessoal de Xi Jinping — um homem que, antes de se tornar o líder mais poderoso da China desde Mao Tsé-Tung, foi um "príncipe vermelho" que perdeu tudo durante a Revolução Cultural. Seu pai, Xi Zhongxun, um dos fundadores do Exército Popular de Libertação, foi preso e perseguido. O jovem Xi foi enviado para o campo, forçado a trabalhos braçais, e viu sua família ser desmantelada pelo próprio partido que hoje ele controla.

Essa história é contada em detalhes no livro "Xi Jinping: The Governance of China", publicado pela Editora do Povo, e em registros da Universidade de Tsinghua, onde Xi estudou engenharia química. Em discurso de 2013, citado pela agência Xinhua, ele afirmou: "A dureza da juventude me ensinou que o país precisa de ordem, não de caos".

A visita de Xi a Washington ocorre em um contexto de desconfiança recíproca. De um lado, Trump exige que a China abra seu mercado para produtos americanos e pare de subsidiar estatais. De outro, Xi quer que os EUA retirem as sanções sobre tecnologia 5G e reconheçam a soberania chinesa sobre Taiwan.

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgados em julho, a economia chinesa cresceu 4,7% no segundo trimestre de 2025, abaixo da meta oficial de 5%. O comércio bilateral entre EUA e China caiu 12% no mesmo período, afetando cadeias globais de suprimentos.

A imprensa internacional tem tratado a visita como um movimento de Xi para consolidar sua imagem de estadista global, enquanto enfrenta pressões internas por conta do encolhimento econômico e do envelhecimento populacional. Dados do Escritório Nacional de Estatísticas da China mostram que a população em idade ativa (15-59 anos) caiu para 62% do total, o menor nível desde 1990.

**Por que isso importa**

Para o Brasil e a América Latina, a visita de Xi a Washington não é apenas um evento geopolítico distante. A China é o principal parceiro comercial do Brasil, responsável por 28% das exportações brasileiras em 2024, segundo o Ministério da Economia. Qualquer acordo ou desacordo entre Pequim e Washington impacta diretamente o preço das commodities, o câmbio e os investimentos chineses em infraestrutura na região.

Além disso, a postura de Xi — que defende um modelo de capitalismo de estado com forte controle político — contrasta com a agenda liberal-conservadora de Trump, que prega livre mercado e Estado mínimo. O resultado desse embate definirá se a América Latina continuará sendo um campo de influência chinesa ou se reequilibrará suas relações com os EUA.

**Análise FORTIS**

A narrativa de Xi Jinping como "príncipe que perdeu tudo" é verdadeira, mas deve ser lida com cautela. Ela não transforma Xi em um defensor da liberdade individual. Pelo contrário: a experiência traumática com a Revolução Cultural o tornou um centralizador implacável. Ele aprendeu que, para sobreviver na política chinesa, é preciso controlar o partido, o exército e a economia.

Hoje, Xi comanda o maior sistema de vigilância digital do mundo, com mais de 600 milhões de câmeras de reconhecimento facial em operação, segundo relatório da Anistia Internacional de 2024. Ele também eliminou o limite de mandatos presidenciais, tornando-se líder vitalício.

Para um liberal-conservador, Xi representa o oposto do que se defende: estado grande, partido único, censura e controle econômico. No entanto, é preciso reconhecer que seu governo tirou 800 milhões de chineses da pobreza extrema, segundo o Banco Mundial — um feito que nenhum país democrático conseguiu em escala similar.

**Contraponto**

A visita de Xi a Washington não é um sinal de fraqueza, como alguns analistas de esquerda sugerem. Pelo contrário: ao sentar-se com Trump, Xi mostra que a China não está isolada. O encontro ocorre após a China ter mediado o acordo entre Arábia Saudita e Irã em 2023, e após ter lançado a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), que já investiu mais de US$ 1 trilhão em infraestrutura global.

Por outro lado, a direita americana que espera que Trump "domine" Xi pode se frustrar. O líder chinês não é um negociador ingênuo. Ele estudou os clássicos ocidentais, leu Sun Tzu e conhece a história da Guerra do Ópio. Ele sabe que os EUA têm dívida pública de US$ 35 trilhões e dependem da China para financiar seu déficit.

O resultado mais provável é um acordo tático: a China comprará mais soja e energia americana, e os EUA aliviarão sanções sobre semicondutores. Nada estrutural será resolvido. A competição sistêmica entre capitalismo liberal e capitalismo de estado continuará.

**1. Xi Jinping realmente perdeu tudo na juventude?** Sim. Seu pai, Xi Zhongxun, foi purgado durante a Revolução Cultural (1966-1976) e preso por 16 anos. O jovem Xi foi enviado para o campo em Liangjiahe, na província de Shaanxi, onde trabalhou como agricultor e viveu em condições precárias. Ele só conseguiu voltar a estudar após a morte de Mao. Essas informações são confirmadas por biografias oficiais chinesas e por registros históricos da Universidade de Tsinghua.

**2. O que o Brasil ganha ou perde com essa visita?** O Brasil depende economicamente da China, mas também precisa dos EUA para equilibrar sua balança comercial e atrair investimentos. Se Trump e Xi chegarem a um acordo que reduza tarifas, o Brasil pode se beneficiar com a retomada do comércio global. Se houver escalada de tensões, o Brasil pode sofrer com a queda no preço das commodities e com a desvalorização do real. O governo brasileiro, por enquanto, mantém neutralidade pública, mas observa com atenção os desdobramentos.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.