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Internacional

Xi Jinping chega aos EUA: a trajetória do “príncipe” que perdeu tudo antes de se tornar o líder mais poderoso da China

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-24

O presidente chinês desembarca em Washington em meio a tensões comerciais e militares. Sua história pessoal, marcada por humilhações na Revolução Cultural e a perda do pai, ajuda a explicar o homem que hoje centraliza poder como nenhum outro líder desde Mao Tsé-Tung.

A bordo do Air China 747, Xi Jinping pousou no Aeroporto Internacional de Washington-Dulles na manhã desta quinta-feira. A visita de Estado, marcada por uma agenda de três dias com o presidente dos Estados Unidos, ocorre em um momento de máxima tensão geopolítica: tarifas recíprocas, disputa por semicondutores, guerra de tecnologia 5G e o avanço chinês sobre Taiwan. Mas para entender o líder que hoje comanda o Partido Comunista da China (PCCh) com punho de ferro, é preciso voltar ao passado.

Diferente da narrativa oficial chinesa, que projeta Xi como um líder forte e infalível desde o berço, a realidade de sua juventude foi marcada por perdas, humilhações e uma sobrevivência política que beira o milagre. Xi Jinping nasceu em 1953, filho de Xi Zhongxun, um dos heróis da Revolução Comunista. O pai foi um dos fundadores da zona libertada de Shaanxi-Gansu-Ningxia e chegou a ser vice-primeiro-ministro. Mas, em 1962, caiu em desgraça: acusado de “revisionismo” e vinculado a uma suposta trama golpista, foi preso e enviado para campos de reeducação. A família inteira foi destruída.

O jovem Xi, então com 9 anos, viu o pai ser levado algemado. Sua mãe, Qi Xin, foi enviada a uma prisão em Hunan. Xi e os irmãos foram dispersos. Durante a Revolução Cultural (1966-1976), o “príncipe” do PCCh tornou-se alvo de humilhações públicas. Em depoimentos posteriores, Xi relatou que foi espancado por guardas vermelhos, forçado a usar um cartaz no pescoço escrito “filho do traidor” e enviado para trabalhos forçados em uma vila remota em Shaanxi. Ele viveu em uma caverna escavada em loess, alimentando-se de mingau de milho e trabalhando 16 horas por dia na agricultura.

A virada começou em 1969, quando Xi foi designado para Liangjiahe, uma das regiões mais pobres da China. Lá, aprendeu na prática o que era a miséria camponesa — longe dos banquetes do Palácio Zhongnanhai. Sobreviveu à fome, às doenças e à vigilância constante de seus supervisores. Em vez de sucumbir, Xi entrou para o Partido Comunista em 1974, aos 21 anos, e tornou-se secretário da célula local. Usou o posto para construir um banheiro público, uma represa e um moinho movido a água. Ganhou a confiança dos camponeses — e dos superiores que vigiavam seu “arrependimento”.

A reabilitação de seu pai veio em 1978, sob Deng Xiaoping. Xi Jinping pôde então cursar engenharia química na Universidade Tsinghua, berço da elite chinesa. Mas sua ascensão não foi meteórica. Ele passou 15 anos em cargos provinciais, governando áreas rurais e lidando com desastres naturais, epidemias e corrupção local. Em 2007, já como secretário do partido em Xangai, foi alçado ao Politburo. Em 2012, assumiu a presidência do partido e do país.

Por que isso importa para o leitor latino-americano? Porque o modelo de liderança de Xi não se baseia em consenso democrático, mas em lealdade absoluta, centralização e controle. Sua experiência pessoal — a perda total de tudo, o erro paterno, a reconstrução — forjou um homem que desconfia de instituições independentes e prefere concentrar poder em suas próprias mãos. Ele viu o pai ser destruído por uma luta interna; aprendeu que, na política chinesa, ou se domina ou se é dominado.

Para os países da América Latina, que cada vez mais dependem de investimentos chineses em infraestrutura, mineração e agricultura, a visita de Xi aos EUA sinaliza algo concreto: a China continuará sua expansão global, mas o fará com mão mais pesada. A Rota da Seda, os empréstimos do Banco de Desenvolvimento da China e os acordos de cooperação militar com regimes autoritários são extensões da mesma lógica. Xi negocia com Washington, mas sua verdadeira base de poder está em Pequim e nos 90 milhões de membros do partido que juram lealdade a ele até a morte.

Uma análise da política de livre mercado: embora a China seja formalmente um Estado socialista, sua economia é um capitalismo de Estado altamente concentrado. Xi eliminou limites de mandato em 2018, tornando-se líder vitalício. Empresas privadas chinesas, como Alibaba e Tencent, foram submetidas ao controle do Partido. Investidores estrangeiros que acreditavam na “China liberalizante” foram surpreendidos pelo aperto regulatório. Para um liberal-conservador, a lição é clara: regimes autoritários podem crescer rápido, mas sempre tendem a consumir a liberdade econômica que gerou o crescimento. O Brasil e seus vizinhos latino-americanos precisam diversificar parcerias, evitando dependência unilateral de um parceiro que não hesita em usar o escudo econômico como espada política.

Contraponto necessário: há quem argumente que a narrativa de Xi como um “sobrevivente” é instrumentalizada pelo próprio Partido para construir uma aura de mártir e líder providencial. Críticos internos e exilados, como o dissidente Hu Shigen, afirmam que muitos episódios da biografia oficial foram editados para eliminar momentos de fraqueza ou dúvida. O livro “O Príncipe Vermelho”, publicado fora da China, detalha como Xi teria sido protegido por militares leais ao pai — o que contradiz a ideia de que ele venceu tudo sozinho. A verdade factual, neste caso, é que não há fontes independentes que confirmem ou neguem integralmente qualquer versão. Sabe-se que Xi passou pela Revolução Cultural e que seu pai foi preso. O resto é narrativa oficial.

Para a América Latina, a visita de Xi aos EUA não altera, em curto prazo, os contratos de minério, soja e petróleo. Mas reforça um sinal: a competição entre EUA e China continuará aquecida, e os países da região terão que escolher lados. Fingir que podem ficar neutros, como fez o Brasil nos últimos anos, tem custos crescentes. O Paraguai, que reconhece Taiwan, já sente a pressão. A Argentina, que aderiu à Rota da Seda, vê seus pagamentos atrasados em dólares congelados em Pequim. O Peru e o Chile mantêm acordos de livre comércio, mas veem a China comprar áreas estratégicas de portos e minas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.