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Opiniao

Empobrecimento da linguagem: cada vez menos palavras e cada vez menos liberdade de pensar

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-26

Pesquisas indicam que o vocabulário ativo de jovens e adultos na América Latina encolheu drasticamente na última década. Para especialistas, o fenômeno não é só uma questão cultural, mas um sintoma de perda de capacidade crítica — e de espaço para o pensamento independente.

A língua é a ferramenta mais poderosa que um ser humano possui para expressar ideias, defender interesses e exercer sua liberdade. Quando uma população começa a falar menos palavras — e a usar estruturas cada vez mais simplificadas — não estamos diante de uma mera tendência estética ou geracional. Estamos observando, em tempo real, o estreitamento da capacidade de compreensão do mundo e, consequentemente, da possibilidade de reagir a ele.

Levantamentos recentes em escolas públicas e privadas do Brasil, Argentina e México — países que lideram a América Latina em acesso à internet — mostram que o repertório lexical de adolescentes caiu cerca de 15% entre 2010 e 2024, segundo um estudo do Instituto de Pesquisas Linguísticas de Buenos Aires (IPL), divulgado em publicação nas redes sociais. O dado é consistente com relatórios da OCDE sobre proficiência em leitura, que indicam estagnação ou queda na compreensão de textos entre estudantes latino-americanos desde 2018.

O que explica esse empobrecimento? Não é difícil enxergar. A era das redes sociais e dos aplicativos de mensagens instantâneas converteu a comunicação em um exercício de economia extrema: substituímos frases por emojis, argumentos por reações automáticas, e opiniões por curtidas. A pressão por velocidade e brevidade, imposta pelas plataformas digitais, formata o cérebro para evitar a complexidade — e o vocabulário encolhe justamente porque a profundidade de pensamento se tornou um desejo secundário.

Do ponto de vista liberal-conservador, o fenômeno é duplamente preocupante. Primeiro, porque a redução do vocabulário diminui a capacidade dos cidadãos de exigir transparência do Estado e de seus representantes. Um eleitor que não conhece palavras como “subsídio”, “renúncia fiscal” ou “regulamentação” tende a aceitar pacotes de benefícios que, no fundo, são financiados com seus próprios impostos. O economista austríaco Friedrich Hayek já alertava: a liberdade depende da capacidade de formular pensamentos abstratos, e essa capacidade repousa sobre a riqueza da linguagem. Quanto menor o léxico, maior a vulnerabilidade ao discurso simplista do “pai dos pobres” ou do “salvador da pátria”.

Segundo, porque o fenômeno atinge em cheio o mercado de trabalho. A economia moderna, baseada em conhecimento e serviços intensivos, exige colaboradores com alta capacidade de análise e comunicação. Países latino-americanos que já sofrem com baixo crescimento e produtividade estagnada não podem dar-se ao luxo de formar gerações que se expressam em frases fragmentadas, desconectadas e carentes de lógica. Um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), publicado em nota técnica de 2025, estimou que a deficiência em linguagem e raciocínio abstrato custa à região até 2% do PIB anualmente, na forma de menor inovação e maior rotatividade de empregos mal executados.

A esquerda, no entanto, costuma tratar o tema como um problema exclusivamente educacional — e propõe soluções centralizadas, como aumentar o orçamento público ou impor novas diretrizes curriculares “progressistas”. Mas os fatos mostram o contrário. Em São Paulo, secretarias municipais que mais gastaram em programas de leitura digital registraram, em testes de 2023, pior desempenho lexical do que municípios menores que investiram em bibliotecas físicas e metodologias tradicionais, conforme dados consolidados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. O problema não é falta de dinheiro; é a orientação ideológica que despreza o esforço memorizador e a leitura de obras clássicas, substituindo-os por “letramentos” fluidos e conteúdos ativistas.

No campo dos costumes, vale notar também que a simplificação linguística anda de mãos dadas com o relativismo moral. Sem palavras para nomear virtudes antigas — como honra, pudor, temperança ou diligência —, os jovens perdem referências éticas sólidas. Não é exagero afirmar que a ruína da linguagem é engenharia social: quanto mais pobre o vocabulário, mais fácil fabricar consentimento. Quando o Estado e as grandes corporações de tecnologia controlam os canais de comunicação, um povo com menos palavras torna-se mais manobrável, mais receptivo a slogans e mais indiferente a contradições.

Há, claro, quem conteste esse diagnóstico. Linguistas progressistas argumentam que a variação linguística é natural e que o encolhimento do léxico não indica perda cognitiva. Citam o uso de jargões e abreviações como prova de que a língua está “viva” e adaptável. Fazem sentido em parte — a língua muda, é fato —, mas ignoram que a redução do vocabulário não vem acompanhada de ganhos em complexidade estrutural. Pelo contrário, as frases viraram fragmentos: o “muito texto” é evitado, e o debate político se resume a “direita” e “esquerda”, sem nuance. Não há criatividade em um comunicado de 280 caracteres; há apenas enviesamento automático.

O remédio para esse mal é complexo e passa por uma mudança cultural profunda. Os pais precisam retomar o papel de primeiros professores, lendo histórias para os filhos e exigindo que eles escrevam à mão, sem dependência de corretores automáticos. As escolas devem abandonar o modismo pedagógico que despreza a memorização de poemas, a redação de textos longos e a gramática normativa — ferramentas que sempre foram o passaporte para o pensamento claro. E o Estado, em vez de criar novas plataformas digitais governamentais ou regulamentar a internet com mãos pesadas, deveria garantir liberdade total ao mercado de conteúdo, permitindo que editoras independentes e veículos tradicionais floresçam sem censura ou incentivos dirigidos.

Por fim, o mesmo alerta vale para os governos da região. Enquanto Brasília, Buenos Aires e Cidade do México gastam bilhões em propaganda institucional e em programas de “inclusão digital” que apenas repetem o discurso oficial, a base da cidadania — a capacidade de falar, argumentar e contestar — definha silenciosamente. Uma população que não conhece as palavras para criticar o Estado jamais será livre. E sem liberdade, não há progresso. A língua é a primeira trincheira da soberania. Perdê-la, uma palavra por vez, é a derrota mais silenciosa que uma nação pode sofrer.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.