FORTIS
← FORTIS
Seguranca

“Sinto que é como um sequestro”: venezuelanos se isolam em Doral por medo de redadas do ICE

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

A comunidade venezuelana de Doral, na Flórida, vive um clima de pânico. Com o aumento das operações do ICE, muitos deixaram de sair de casa para trabalhar ou estudar, temendo a deportação. O sentimento, relatado à imprensa local, é de cárcere voluntário.

Uma rotina de medo tomou conta de Doral, subúrbio de Miami que abriga a maior concentração de venezuelanos nos Estados Unidos. Relatos obtidos pelo jornal El Nuevo Herald e pelo Miami Herald descrevem famílias que passaram a trancar portas e janelas, evitar saídas desnecessárias e até cancelar matrículas escolares dos filhos. “Sinto que isso é como um sequestro”, disse uma moradora, que pediu anonimato por medo de represálias. “Estou presa dentro da minha própria casa.”

O fenômeno ocorre em meio à intensificação das operações de imigração pelo ICE (Immigration and Customs Enforcement) sob a administração Trump, que retomou batidas em locais de trabalho, residências e até igrejas. Dados oficiais do ICE mostram que, só no primeiro semestre de 2026, as deportações de venezuelanos aumentaram 340% em relação ao mesmo período de 2025, saltando de 1.200 para 5.280 remoções. O governo americano alega que muitos imigrantes perderam o Status de Proteção Temporária (TPS) concedido durante a crise na Venezuela, ou tiveram pedidos de asilo negados.

Por que isso importa? Doral não é apenas um bairro residencial. Com mais de 60 mil venezuelanos — muitos deles profissionais qualificados, empreendedores e pequenos empresários —, a região se tornou um motor econômico local. Restaurantes, lojas e serviços de saúde administrados por venezuelanos empregam centenas de americanos e imigrantes legais. O medo generalizado já provocou queda no movimento comercial e no pagamento de impostos municipais, afetando a arrecadação da cidade. A Câmara de Comércio de Doral estima que 12% dos negócios de proprietários venezuelanos reduziram o expediente ou fecharam temporariamente.

Análise FORTIS: A situação expõe a falha de décadas na política migratória americana. Durante os governos Obama e Biden, milhões de imigrantes ilegais ou com status temporário foram tolerados, criando uma dependência econômica e social que agora se choca com a aplicação fria da lei. O governo Trump tem o direito soberano de fazer cumprir as leis de imigração, e é legítimo que remova quem entrou ou permaneceu irregularmente. Contudo, a forma abrupta e muitas vezes midiática das operações gera um custo humano e econômico que poderia ser mitigado com regras claras e prazos razoáveis para regularização. O Estado mínimo prega que a lei seja aplicada, mas também que o cidadão — inclusive o imigrante — possa planejar sua vida sem sobressaltos. Aqui, o problema não é a lei, e sim a ausência de previsibilidade. O governo Biden, ao não reformar o sistema de asilo e ao conceder TPS de forma ampla e depois revogá-lo sem transição, jogou essas pessoas no limbo jurídico.

Contraponto: Defensores de direitos humanos, como a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), afirmam que as redadas são desumanas e violam o devido processo legal. Em comunicado, a entidade classificou as operações como “caça aos imigrantes” e pediu que o Congresso aprove um caminho para a cidadania dos venezuelanos que já estão há mais de cinco anos no país. Dados do Migration Policy Institute indicam que 78% dos venezuelanos deportados em 2026 tinham processos de asilo em andamento ou recursos pendentes, o que sugere que o sistema judicial não consegue acompanhar o ritmo das remoções. A crítica tem fundamento: a eficiência na aplicação da lei não pode vir às custas do direito ao contraditório. Por outro lado, a mesma ACLU se opõe a qualquer controle de fronteiras, o que na prática inviabiliza qualquer ordem migratória. O equilíbrio ideal — defender a soberania sem suprimir garantias processuais — exige que o Congresso americano, e não o Executivo, defina regras estáveis.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.