Aos 19 anos, a colombiana Valentina Agudelo não esperou que o sistema público de saúde resolvesse um dos maiores problemas oncológicos da região. Ela criou um dispositivo do tamanho de um smartphone que, em poucos minutos, analisa a temperatura e a densidade do tecido mamário e aponta o risco de câncer de mama. O aparelho, batizado de “EVA Mammo”, já despertou interesse de investidores privados e de organizações de saúde na América Latina.
O câncer de mama é a principal causa de morte por câncer entre mulheres latino-americanas. Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a incidência na região cresce 3% ao ano, mas o acesso a mamografias é restrito: apenas 30% das mulheres com mais de 40 anos realizaram o exame no último ano. Em países como Colômbia, Peru e Brasil, as filas do sistema público podem chegar a seis meses. Foi nesse cenário de ineficiência estatal que Valentina decidiu agir.
Em publicação nas redes sociais, a inventora explicou que o dispositivo usa sensores térmicos e um algoritmo de inteligência artificial treinado com milhares de imagens de mamas saudáveis e tumorais. “O aparelho não substitui a mamografia, mas permite que a mulher faça um rastreamento mensal em casa, no trabalho ou em comunidades rurais”, afirmou Valentina em entrevista ao portal colombiano El Colombiano. O resultado sai em menos de cinco minutos e é enviado para o celular da usuária.
Por que isso importa? Porque, pela primeira vez, uma solução de saúde de alto impacto nasce de um empreendedor, não de um gabinete ministerial. Enquanto governos latino-americanos gastam bilhões em hospitais inacabados e licitações superfaturadas, Valentina desenvolveu uma tecnologia que custa menos de 200 dólares por unidade — e que pode ser produzida em escala industrial com matéria-prima local. O Estado, que historicamente tributa demais e entrega pouco, agora tem a oportunidade de simplesmente não atrapalhar.
Análise FORTIS: A história de Valentina Agudelo é um exemplo perfeito de como o livre mercado e a iniciativa individual podem resolver problemas que o Estado insiste em burocratizar. Na América Latina, o câncer de mama é tratado como uma questão de “política pública” — ou seja, de promessas eleitorais e orçamentos que nunca chegam ao paciente. O dispositivo de Valentina, ao contrário, coloca o poder nas mãos da mulher: ela decide quando, onde e com que frequência se examinar. Não depende de agendamento, de autorização de plano de saúde ou de fila do SUS.
Contraponto: É verdade que o aparelho ainda precisa de validação clínica em larga escala. A própria Valentina reconhece, em seu perfil no LinkedIn, que o algoritmo está em fase de aperfeiçoamento e que a aprovação regulatória nos países latino-americanos deve levar de 12 a 18 meses. No entanto, o maior obstáculo não é técnico — é político. Agências reguladoras como a ANVISA (Brasil) e o INVIMA (Colômbia) têm fama de lentidão e excesso de exigências burocráticas que favorecem grandes laboratórios estrangeiros em detrimento de inovadores locais. Se o Estado quiser realmente salvar vidas, deveria acelerar a aprovação, não criar novas barreiras.
O dispositivo também não substitui a mamografia em casos de diagnóstico confirmado, mas isso é um argumento a favor, não contra. A mamografia continuará sendo o padrão-ouro para confirmação — e quem lucra com isso são os hospitais e fabricantes de equipamentos caros. O EVA Mammo atua na triagem, reduzindo o número de mulheres que chegam tarde ao sistema. Em vez de concorrer com a mamografia, ele a complementa, desafogando a demanda reprimida.
Por Renan Filho · 2026-09-26