O anúncio de que Robert Pattinson interpretará o apresentador do programa que expunha pedófilos ao vivo reacendeu uma velha discussão: até onde a mídia pode ir no combate ao crime sem usurpar funções do Estado? O filme, com previsão de estreia na América Latina em 2027, é baseado no formato original 'To Catch a Predator', exibido nos Estados Unidos entre 2004 e 2008 pela NBC, e que se tornou um fenômeno de audiência e um pesadelo jurídico.
O programa consistia em uma parceria com a polícia: voluntários da organização Perverted Justice fingiam ser menores de idade em chats online. Quando um adulto marcava um encontro sexual, a equipe de TV e policiais o interceptavam, filmando toda a abordagem. O suspeito era confrontado pelo apresentador Chris Hansen — papel que Pattinson assumirá — e depois entregue às autoridades. O resultado foi a prisão de centenas de homens, mas também uma série de problemas legais e éticos.
Por que isso importa agora para a América Latina? Porque a região enfrenta uma epidemia de crimes sexuais contra crianças, com taxas de impunidade que ultrapassam 90% em países como Brasil e México. A tentação de adotar métodos extralegais ou midiáticos é enorme. Governos ineficientes, polícias desaparelhadas e Judiciários lentos criam um vácuo que o entretenimento muitas vezes tenta preencher. O filme de Pattinson, ao humanizar o caçador, pode glamorizar essa abordagem — ou expor suas falhas.
Análise FORTIS: O programa 'To Catch a Predator' é um exemplo clássico do que ocorre quando o Estado falha em sua função primordial de proteger os cidadãos. A iniciativa privada e a mídia entram para fazer o trabalho que deveria ser do governo, mas o fazem sem as garantias constitucionais. Nos Estados Unidos, diversos casos foram arquivados porque as provas obtidas pela produção foram consideradas contaminadas — a equipe de TV orientava os voluntários, influenciava as conversas e, em alguns episódios, até pressionava os suspeitos a confessar antes da leitura dos direitos. Isso não é justiça; é espetáculo.
O liberal-conservadorismo defende o livre mercado e a criatividade, mas também a supremacia do devido processo legal. Um Estado mínimo não significa um estado ausente: significa um estado que faz bem o pouco que deve fazer. Investigar e punir crimes é dever exclusivo do poder público. Quando a mídia assume esse papel, cria-se um sistema paralelo sem controle, sem transparência e sem possibilidade de defesa para o acusado. O fato de os alvos serem pedófilos não justifica atropelar direitos. A história mostra que justiçamentos midiáticos frequentemente erram o alvo: no próprio programa, um homem se suicidou após ser filmado, e a família processou a NBC por danos morais.
Contraponto: defensores do formato argumentam que a exposição pública é a única forma de pressionar autoridades e educar a população. Dados oficiais do Departamento de Justiça dos EUA indicam que, dos 500 alvos do programa, mais de 400 foram condenados. Para muitos, isso é um sucesso inegável. Além disso, a América Latina tem exemplos de programas similares, como o 'Cidade Alerta' no Brasil, que frequentemente expõe suspeitos em flagrante. A diferença é que, nesses casos, a polícia já está presente e a filmagem é feita com autorização judicial, o que reduz os riscos legais.
No entanto, a eficácia real é questionável. Um estudo da Universidade de Columbia de 2019 mostrou que a exposição midiática de crimes sexuais não reduz a reincidência nem aumenta a taxa de denúncias. Pelo contrário: pode gerar uma 'caça às bruxas' que desvia recursos de investigações mais estruturadas. O filme com Pattinson, se for fiel ao espírito do programa, pode perpetuar a ideia de que o 'herói' é o apresentador que humilha o criminoso, e não o policial que coleta provas de forma limpa.
Por Renan Filho · 2026-09-25