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Economia

Revolução silenciosa dos aposentados: gastar o próprio dinheiro em vez de legar herança – uma escolha liberal que incomoda o Estado e a tradição

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

Cresce na América Latina o número de aposentados que abandonam a máxima de 'deixar algo para os filhos' e passam a consumir ativamente sua renda e patrimônio acumulado – uma decisão individual que desafia tanto o planejamento familiar tradicional quanto a voracidade tributária estatal.

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de institutos similares no México (Inegi) e na Argentina (Indec) apontam uma mudança silenciosa no comportamento financeiro de idosos na América Latina. A parcela de aposentados que declara não pretender deixar herança cresceu de 18% em 2015 para 31% em 2025, segundo levantamento do Centro de Estudos de Finanças Comportamentais da Fundação Getulio Vargas (FGV). O movimento é impulsionado por fatores econômicos e culturais, mas sobretudo por uma constatação racional: o Estado tributa pesadamente a renda durante a vida ativa e, depois, volta a tributar a transferência de riqueza ou simplesmente a dissipa em gastos ineficientes.

O fenômeno não se restringe a uma classe social específica. Pesquisas de mercado do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) indicam que 62% dos idosos latino-americanos com mais de 65 anos afirmam que 'o dinheiro deve ser gasto enquanto se está vivo', contra 38% que ainda defendem a herança como obrigação moral. A diferença é ainda mais acentuada entre os que têm renda própria, como pensões privadas ou investimentos. Em publicação nas redes sociais, o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica, comentou que 'a decisão de consumir o patrimônio acumulado é perfeitamente racional num ambiente em que a poupança é penalizada por impostos e a previdência pública se mostra cada vez mais frágil'.

Por que isso importa? A escolha individual de gastar a poupança – em viagens, saúde particular, lazer e até mesmo em novos negócios – gera um impacto direto na economia. Setores como turismo, serviços de bem-estar e comércio de bens de luxo têm registrado aumento de demanda entre a chamada 'geração prateada'. No Brasil, por exemplo, o gasto médio de aposentados com lazer cresceu 14% ao ano entre 2020 e 2025, segundo a Associação Brasileira de Turismo (ABRATUR). Esse movimento injeta recursos em atividades produtivas que geram empregos e arrecadação, ao contrário da herança, que muitas vezes fica retida em ativos imobiliários ou financeiros por anos até ser liquidada.

A análise FORTIS enxerga essa tendência como um natural desdobramento de décadas de Estado ineficiente. Na América Latina, a carga tributária média sobre a renda do trabalho chega a 40% (OCDE), enquanto os governos entregam serviços públicos de péssima qualidade – saúde, educação e segurança cronicamente deficientes. Ao mesmo tempo, o imposto sobre herança (ITCMD) é aplicado em alíquotas que podem chegar a 8% no Brasil e 12% na Argentina, dependendo do estado ou província. Para um aposentado que já pagou tributos durante toda a vida, legar bens significa submeter seus herdeiros a mais um ônus fiscal. Gastar o dinheiro agora, além de garantir prazer imediato, evita que o Estado fique com uma fatia do que foi suado.

O contraponto vem de setores mais tradicionais e de planejadores financeiros. A Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (ABPF) alerta que o consumo excessivo na terceira idade pode expor o idoso a riscos de longevidade – especialmente num cenário em que a Previdência Social é cada vez mais deficitária e a inflação corrói o poder de compra. 'Não se trata de demonizar a herança, mas de equilibrar o presente e o futuro. Gastar tudo pode deixar o idoso desamparado nos últimos anos de vida, quando os custos médicos aumentam', afirmou a entidade em nota técnica. Ainda assim, o próprio mercado financeiro já se adapta: crescem no Chile e no Brasil os planos de previdência privada com cláusulas de 'consumo programado', que permitem ao segurado esgotar o saldo até o final da vida, sem deixar saldo para herança.

A escolha de gastar ou poupar para os filhos é, antes de tudo, uma questão de liberdade individual. Em uma sociedade de livre mercado, não cabe ao Estado nem à tradição ditar como as pessoas devem dispor do que ganharam honestamente. O fato de um número crescente de aposentados optar pelo consumo em vez da herança revela, na verdade, uma crítica prática ao modelo latino-americano: tributa-se demais, entrega-se de menos e, no fim, o cidadão prefere usar seu dinheiro enquanto pode – antes que o Estado encontre um novo jeito de confiscá-lo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.