Doral, na Flórida, é conhecida como a “capital venezuelana” dos Estados Unidos. Cerca de 75% da população é de origem latina, com forte presença de venezuelanos que fugiram do regime de Nicolás Maduro. Mas, desde que o governo Trump retomou as operações de fiscalização migratória em larga escala, a cidade vive um clima de tensão que lembra zonas de conflito.
Relatos de moradores, publicados em redes sociais e veículos locais como o Miami Herald, descrevem cenas de pânico. “Sinto que é como um sequestro. Não saio de casa nem para comprar comida. Meu filho não vai à escola”, disse uma venezuelana em condição migratória irregular, em entrevista ao canal América TeVé. O sentimento é compartilhado por dezenas de famílias que, mesmo tendo cruzado a fronteira de forma ilegal, agora temem ser separadas.
O governo Trump, amparado pela lei americana e por decisões judiciais que rejeitaram bloqueios às deportações, intensificou as operações do ICE (Immigration and Customs Enforcement) em cidades-santuário e regiões com alta concentração de imigrantes sem documentação. Doral, por sua vez, não é uma cidade-santuário, mas abriga muitos venezuelanos que entraram nos EUA após 2022, beneficiados por um programa de parole humanitário que o próprio governo Biden criou e que Trump agora revisa.
Por que isso importa? Porque o caso de Doral é um microcosmo do debate migratório nos EUA. De um lado, há a defesa da soberania nacional: todo país tem o direito de controlar suas fronteiras e aplicar suas leis. Do outro, há a realidade humanitária de pessoas que fugiram de uma ditadura socialista — a mesma que o governo Lula, no Brasil, insiste em chamar de “parceira”. O fato é que a imigração ilegal, mesmo quando motivada por razões legítimas, não pode ser tratada como direito adquirido.
Análise FORTIS: O que se vê em Doral é o resultado de décadas de políticas migratórias frouxas, que incentivaram a entrada desordenada e criaram um mercado paralelo de trabalho informal. O Estado americano, sob administrações republicanas e democratas, falhou em criar um sistema de imigração que fosse ao mesmo tempo humano e eficiente. O governo Trump, ao apertar o cerco, está apenas cumprindo a lei. Mas a forma como as operações são conduzidas — muitas vezes com abordagens ostensivas, sem aviso prévio e em horários que pegam famílias desprevenidas — gera um custo social que não pode ser ignorado.
Do ponto de vista liberal-conservador, a defesa da soberania nacional é inegociável. Um país sem fronteiras controladas deixa de ser um país. No entanto, a execução dessas políticas precisa ser feita com inteligência, não com brutalidade. O governo Trump poderia, por exemplo, priorizar a deportação de criminosos condenados e não de pais de família que trabalham em construção civil ou serviços domésticos. A lei permite essa discricionariedade.
Contraponto: Defensores dos direitos dos imigrantes, como a American Civil Liberties Union (ACLU), argumentam que as operações do ICE violam o devido processo legal e causam trauma psicológico em crianças. “Prender um pai ou uma mãe na frente dos filhos é uma forma de tortura psicológica”, declarou um porta-voz da entidade em nota. O argumento tem peso moral, mas não jurídico: a lei americana não concede status de cidadão a quem entrou ilegalmente, e o devido processo legal é exatamente o que garante que o imigrante possa apresentar sua defesa antes da deportação.
O que falta, na verdade, é uma reforma migratória ampla — que o Congresso americano, paralisado por disputas partidárias, nunca conseguiu aprovar. Enquanto isso, cidades como Doral vivem na corda bamba entre o medo e a esperança.
Por Renan Filho · 2026-09-24