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Economia

A epidemia silenciosa das mulheres: por que a migrânea ataca mais o sexo feminino e o que o Estado não faz a respeito

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

Pesquisas internacionais apontam que a prevalência de enxaqueca entre mulheres chega a ser três vezes maior do que entre homens, com forte influência hormonal. Enquanto isso, o sistema público de saúde latino-americano segue tratando a condição com negligenciável prioridade e desperdício de recursos.

Dados globais estimam que cerca de 15% da população mundial sofra de migrânea — a famosa enxaqueca —, sendo que as mulheres são as mais afetadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição afeta aproximadamente uma em cada cinco mulheres, enquanto entre homens a proporção cai para um em cada quinze.

O levantamento mais recente do Global Burden of Disease, publicado na revista científica The Lancet, aponta que a migrânea figura como a segunda principal causa de anos vividos com incapacidade no planeta. Entre mulheres de 15 a 49 anos, o quadro é ainda mais severo: é a primeira causa de incapacidade nessa faixa etária, superando dores lombares e até transtornos depressivos.

A ciência aponta que a diferença biológica é determinante. As oscilações bruscas do estrógeno — hormônio feminino que modula o sistema trigêmeo e os neurotransmissores ligados à dor — explicam a maior suscetibilidade. Na fase lútea, dias antes da menstruação, a queda hormonal é um dos maiores gatilhos para crises agudas.

No Brasil, o cenário não é diferente. A Sociedade Brasileira de Cefaleia estima que cerca de 30 milhões de brasileiros sofram com enxaqueca, dos quais mais de 24 milhões são mulheres. O impacto econômico é brutal: afastamentos do trabalho, perda de produtividade e gastos com medicação sem resultado.

O problema é que o tratamento adequado custa caro e, no sistema único de saúde na América Latina, o acesso às terapias modernas é uma verdadeira loteria. A maioria dos pacientes recorre aos chamados triptanos, que são eficazes quando a crise já começou, mas não previnem novas dores. As opções preventivas mais avançadas, como os anticorpos monoclonais voltados ao peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), representam um avanço científico notável — porém custam entre R$ 2.000 e R$ 4.000 por mês no setor privado.

Enquanto países como Estados Unidos e Alemanha discutiram políticas de preço e regulação para ampliar o acesso a esses medicamentos, no Brasil as negociações se arrastam no âmbito da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias, com pareceres técnicos lentos e burocráticos. Não por acaso, o mercado paralelo e o contrabando de medicamentos de alto custo para dores crônicas crescem ano após ano.

Na iniciativa privada, a inovação farmacêutica é tratada como vilã por setores atrasados da esquerda. Mas são justamente as empresas farmacêuticas que investem bilhões em pesquisa clínica para fazer surgir tratamentos que devolvem autonomia e qualidade de vida às profissionais, mães e trabalhadoras. É um erro estatal criar amarras regulatórias que tornam ainda mais inviável o acesso a esses avanços.

O argumento mais usado por burocratas é o do custo elevado. Entretanto, o custo da inação é muito maior. Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) calcula que a enxaqueca gera um prejuízo anual de R$ 12,4 bilhões à economia nacional, contabilizando-se faltas ao trabalho, consultas médicas emergenciais, medicamentos ineficazes e perda de renda familiar. Dito de outra forma: o Estado brasileiro gasta mal, tributa demais e ainda entrega em falta um cuidado que poderia reduzir drasticamente os custos sociais da doença.

A explicação para a disparidade entre os sexos não deve ser usada para legitimar vitimismo ou narrativas de opressão sistêmica. A migrânea é uma doença orgânica com mecanismos complexos, e tratá-la exige bom senso liberal: individualizar o cuidado, levar educação sobre gatilhos à população e garantir que as famílias possam decidir o melhor tratamento com seus médicos — sem a interferência de uma máquina pública ineficiente.

Outro ponto importante é o papel da nutrição e dos hábitos de vida. Evidências robustas demonstram que a suplementação de magnésio, riboflavina (vitamina B2) e coenzima Q10 oferecem redução considerável da frequência das crises — um custo baixíssimo comparado a anos de sofrimento. Dietas com baixa ingestão de alimentos ultraprocessados têm efeito neutro a positivo na prevenção. Isso, no entanto, raramente é abordado nas consultas de atenção primária, sempre lotadas e com tempo mínimo de escuta.

FORTIS acredita que o caminho passa pela liberdade de escolha e pela precificação realista dos tratamentos, para que os laboratórios vejam na América Latina um mercado atraente. Em vez de tabelar preços e criar punições para o investimento, o governo deveria reduzir impostos sobre medicamentos preventivos e promover incentivos à pesquisa nacional. Não é com índices de produtividade acadêmica que se resolve um problema dessa magnitude, mas com desburocratização e abertura comercial.

Especialistas ouvidos por outros veículos apontam que pacientes mulheres sofrem por anos com dores debilitantes antes de receberem um diagnóstico correto. Muitas relatam que familiares e até médicos minimizam a dor, rotulando-a como "frescura" ou "estresse". Se por um lado não é papel do Estado interferir na relação médico-paciente, por outro é dever das autoridades sanitárias difundir informação técnica de qualidade para quebrar preconceitos infundados.

Enquanto isso, o mercado de trabalho se adapta de forma natural: a adoção do home office e de horários flexíveis, impulsionada pela pandemia de Covid-19 e pela cultura da autonomia, tem sido apontada por especialistas como um fator que reduz a frequência de crises em pacientes que conseguem gerenciar melhor o sono e a alimentação. Isso reforça a tese liberal de que arranjos privados e contratos livres entre empresas e empregados resolvem problemas que o estado paternalista cria.

Não é exagero afirmar que, para o sistema público de saúde, a enxaqueca feminina segue sendo uma prioridade de fachada. Enquanto protocolos clínicos são atualizados a cada quatro anos, em média, novas pesquisas surgem mensalmente — e quem sofre com a doença não tem tempo a perder. A verdade factual é que milhões de mulheres latino-americanas convivem com uma condição debilitante, tratável e negligenciada por décadas de escolhas políticas equivocadas.

A solução, portanto, passa por reconhecer que o mercado, a ciência e a responsabilidade individual são os vetores que efetivamente mudam vidas. Não se combate a dor com discurso. Combate-se com inovação, acesso e eficiência.

Contraponto: é preciso reconhecer que nem toda paciente tem condição financeira para arcar com medicamentos de alto custo. No entanto, a resposta do liberalismo moderno é racional: investimento em prevenção primária e educação em saúde, aliado a um sistema de redes de proteção — e não o monopólio estatal de um tratamento inacessível.

**1. Existem medidas de baixo custo que ajudam a reduzir a dor da migrânea no dia a dia?** Sim. Estudos revisados por pares, como os publicados no periódico Neurology, indicam que a coenzima Q10, magnésio e riboflavina (vitamina B2) têm efeito preventivo moderado sobre a frequência das crises, com custo mensal abaixo de R$ 60 no Brasil. A regularidade do sono, alimentação em horários fixos e hidratação adequada também são fatores determinantes fortes.

**2. Por que as mulheres são mais afetadas do que os homens na mesma idade?** A razão é predominantemente hormonal. O estrógeno influencia diretamente os níveis de serotonina e a excitabilidade do córtex cerebral. A flutuação desses hormônios ao longo do ciclo menstrual, bem como o uso de anticoncepcionais, atua como gatilho. Homens apresentam um padrão hormonal estável, o que explica a menor incidência.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.