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"Nosso diretor era um abusador": como dois ex-alunos de internado uniram forças contra o silêncio e acabaram casados

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

Uma história real de coragem e resiliência que expõe as falhas de instituições que deveriam proteger e ensina que a justiça, quando buscada com determinação, pode transformar dor em recomeço.

A denúncia de abusos em internados não é novidade na América Latina. O que chama a atenção no caso ocorrido no interior da Argentina é a trajetória de dois ex-alunos que, após sofrerem nas mãos do mesmo diretor, decidiram não apenas buscar justiça nos tribunais, mas também reconstruir suas vidas juntos.

A história de Martín e Lucía (nomes fictícios preservados por decisão judicial) começou em um colégio interno religioso na província de Córdoba. Ambos foram alunos entre 2015 e 2019, período em que o diretor da instituição, hoje afastado e respondendo a processo, teria cometido abusos sistemáticos contra dezenas de adolescentes.

Em publicação nas redes sociais no último domingo, Lucía escreveu: "Nosso diretor era um abusador. Durante anos, ele usou o poder que a instituição lhe deu para destruir vidas. Martín e eu decidimos que não ficaríamos calados. E, no meio dessa luta, encontramos um no outro a força que nos faltava." O casal se casou em uma cerimônia civil na última sexta-feira, em Buenos Aires.

O caso ganhou repercussão nacional após a imprensa argentina noticiar que pelo menos 15 ex-alunos prestaram depoimento contra o diretor, que responde por abuso sexual de vulneráveis e assédio moral. A investigação corre em segredo de justiça, mas fontes do Ministério Público de Córdoba confirmaram à agência Télam que o réu está proibido de deixar o país.

Por que isso importa? Porque expõe uma realidade incômoda: instituições educacionais, especialmente aquelas com regimes fechados e pouca supervisão estatal ou privada independente, frequentemente se tornam ambientes propícios para abusos. O poder hierárquico, a falta de canais de denúncia eficazes e a cultura de silêncio são combustíveis para que crimes continuem por anos.

A história de Martín e Lucía também levanta questões sobre o papel do Estado. O internado em questão recebia subsídios públicos, mas a fiscalização era precária. Relatórios da Defensoria da Criança e do Adolescente da província, obtidos pelo jornal La Nación, indicam que ao menos três inspeções foram realizadas entre 2016 e 2018, mas nenhuma delas identificou irregularidades graves. Os abusos só vieram à tona quando ex-alunos, já adultos, romperam o silêncio.

Análise FORTIS: O caso é um exemplo clássico de como a concentração de poder sem freios e contrapesos — seja em instituições públicas ou privadas — gera abusos. A solução não é simplesmente aumentar o tamanho do Estado, que já se mostrou ineficiente na fiscalização. A resposta está em mecanismos de transparência real, como ouvidorias independentes, auditorias externas obrigatórias e, principalmente, o fortalecimento do direito individual de buscar reparação na Justiça.

O livre mercado de ideias e instituições também tem seu papel: escolas que não protegem seus alunos perdem credibilidade e alunos. Mas, para isso, é preciso que haja concorrência real e informação disponível. Infelizmente, muitos internados na América Latina operam em regimes de quase monopólio, especialmente em regiões afastadas, o que reduz o incentivo para melhorar.

Contraponto necessário: é preciso evitar a generalização. A maioria das instituições de ensino, inclusive religiosas, cumpre seu papel com seriedade. Culpar todo o sistema por crimes de indivíduos é tão irracional quanto ignorar o problema. O foco deve estar na punição exemplar dos culpados e na criação de mecanismos que impeçam a reincidência, não na destruição de instituições que, em sua maioria, prestam serviços essenciais.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.