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Buenos Aires, Argentina — Mais de 10 mil empresas fecharam as portas na Argentina nos primeiros nove meses de 2025, segundo dados oficiais do Ministério do Trabalho e da Secretaria de Indústria e Comércio. O número representa o maior registro de baixas empresariais desde a crise de 2001 e acendeu um debate na América Latina sobre os custos sociais e produtivos do pacote de reformas liberalizantes implementado pelo presidente Javier Milei. O fechamento em massa atinge especialmente pequenas e médias empresas (PMEs), setor que responde por cerca de 70% do emprego formal argentino.
**Contexto**
A crise empresarial argentina não é um fenômeno isolado, mas sim parte de um processo de reestruturação econômica profunda desencadeada pelas medidas de Milei desde sua posse, em dezembro de 2023. O governo eliminou controles de preços, cortou subsídios a serviços públicos, desregulamentou setores inteiros e promoveu uma forte contração fiscal, com redução do gasto público real em mais de 15% apenas em 2024.
Segundo relatórios da Confederação Argentina da Média Empresa (CAME), entidade que representa as PMEs, o fechamento de empresas é maior nos setores de comércio varejista, indústria leve, construção civil e serviços. As causas apontadas pelos empresários incluem a queda abrupta do poder de compra da população — a inflação anual, embora em desaceleração, ainda girava em torno de 130% ao final de 2025 — e a dificuldade de acesso ao crédito, com juros reais positivos em patamares históricos.
O governo Milei argumenta que os fechamentos são esperados em um processo de "destruição criativa" e que as empresas ineficientes, muitas vezes mantidas artificialmente vivas por subsídios e protecionismo, precisam dar lugar a negócios mais produtivos. O ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que a economia argentina está passando por uma limpeza necessária e que a reativação virá com a estabilização monetária e a entrada de investimentos.
No entanto, dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) mostram que, apesar da queda da inflação de picos de 300% ao ano para cerca de 130%, a pobreza subiu para 48% da população, e o consumo interno despencou. O PIB argentino contraiu cerca de 6% em 2024, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), que aprovou um novo acordo de facilidades estendidas com o país em março de 2025, condicionado a metas fiscais rígidas.
A situação é agravada pelo contexto internacional. A Argentina, grande exportadora de commodities agrícolas, sofreu com a queda dos preços internacionais da soja e do milho em 2025, reduzindo a entrada de dólares e pressionando ainda mais as contas externas. O governo respondeu com uma desvalorização cambial adicional, o que encareceu insumos importados para a indústria local.
**Análise**
O fechamento em massa de empresas na Argentina, sob o governo Milei, oferece um estudo de caso crucial para a América Latina. O experimento libertário, que prometia quebrar o ciclo de estagnação e inflação argentino com cortes drásticos no Estado e desregulamentação total, está mostrando que a transição pode ser extremamente dolorosa e que o saldo de curto prazo é o encolhimento do tecido produtivo.
Para economistas como Andrés López, da Universidade de Buenos Aires (UBA), o que se vê é um cenário de "desindustrialização prematura" e de concentração de mercado. Grandes grupos econômicos e multinacionais têm conseguido resistir e até expandir, enquanto as pequenas empresas, que operam com margens estreitas e sem acesso a crédito internacional, estão sendo varridas. Isso pode levar a um mercado menos competitivo e com maior concentração de renda, contradizendo a narrativa libertária de maior liberdade econômica.
Para outros países latino-americanos, o caso argentino serve como alerta. Governos que flertam com propostas radicais de ajuste fiscal e desregulamentação, como o de Nayib Bukele em El Salvador ou as correntes ultraliberais no Chile e no Peru, devem observar que o choque de oferta argentino, embora tenha controle da inflação como meta, está gerando uma recessão severa e um desemprego em alta, que já supera os 10% no final de 2025.
Há também um efeito simbólico. Durante décadas, a Argentina foi vista como o país do declínio crônico, do populismo e da ineficiência. Milei prometeu inverter essa imagem com um modelo baseado no livre mercado radical. Contudo, o preço pago pelas empresas e trabalhadores argentinos está sendo elevado demais para que o modelo seja visto como um sucesso exportável para a região. A pergunta que ronda os ministérios de economia latino-americanos é: será possível fazer o ajuste fiscal necessário sem destruir a base empresarial e o emprego?
**Fontes**
Os dados e informações desta reportagem foram obtidos a partir de documentos oficiais e relatórios de instituições reais, incluindo o Ministério do Trabalho da Argentina, a Secretaria de Indústria e Comércio, a Confederação Argentina da Média Empresa (CAME), o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), as séries históricas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e declarações públicas do ministro da Economia Luis Caputo. As análises citam o economista Andrés López, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires (UBA), em artigos acadêmicos e entrevistas à imprensa argentina ao longo de 2025.
Por Renan Filho · 2026-09-28