A frase ecoa como um grito silencioso em meio ao deserto informativo da Arábia Saudita: “Me enteré de que lo mataron por las redes sociales”. O relato, extraído de uma investigação da Anistia Internacional publicada em 2024, revela o duplo suplício enfrentado pelos condenados à morte e suas famílias no reino do golfo. primeiro, a própria execução — muitas vezes sem aviso prévio ou acesso a um processo judicial justo. Depois, o segundo castigo: a notícia da morte chega de maneira brutal, via Twitter ou WhatsApp, transformando o luto em humilhação pública e impotência.
A Arábia Saudita é, segundo dados da própria ONU e de organizações de direitos humanos, um dos países que mais executam no mundo em termos absolutos e per capita. Em 2024, ao menos 196 pessoas foram executadas, número que supera o total da China, se considerarmos a população proporcional. Os crimes variam de homicídio e tráfico de drogas a delitos de opinião, como tuítes críticos ao regime. O sistema jurídico é baseado na sharia, mas a aplicação é discricionária, sem garantias de um julgamento imparcial. Muitos condenados são estrangeiros ou minorias xiitas, como os da província de Qatif, onde a repressão é ainda mais intensa.
A prática de informar famílias por redes sociais não é acidental. O governo saudita não mantém um banco de dados público sobre execuções, e os parentes são deixados à deriva. Em depoimento à Anistia Internacional, uma mãe contou que soube da execução do filho dois dias depois, por um link de WhatsApp. “O corpo foi enterrado em uma vala comum. Nunca pude me despedir”. Esse duplo castigo — a morte e a negação do direito ao luto — é uma arma de dissuasão psicológica. O regime quer que o medo se espalhe como um vírus digital.
**Contexto: a máquina de execuções saudita**
Para entender a dimensão do problema, é preciso olhar para os números. Em 2022, a Arábia Saudita executou 196 pessoas, segundo a Anistia. Em 2023, o número caiu ligeiramente para 172, mas a taxa de execuções per capita ainda é uma das mais altas do mundo — maior que a do Irã e da China, quando ajustada pela população. A pena de morte é obrigatória para crimes como adultério, apostasia e “corrupção na terra”, um termo vago usado para silenciar dissidentes políticos. O caso mais emblemático é o do ativista Raif Badawi, condenado a 1.000 chibatadas e 10 anos de prisão, pena posteriormente convertida em execução que só não foi cumprida por pressão internacional.
O processo judicial é secreto. Os réus não têm acesso a advogados de confiança, e as confissões são frequentemente obtidas sob tortura. A Crown Prince Mohammed bin Salman, apesar de seu discurso de modernização (Visão 2030), não tocou no sistema penal. Ao contrário: desde que assumiu o poder, o número de execuções subiu 300% em relação a 2010. A justificativa oficial é a “segurança nacional”, mas as estatísticas mostram que a maioria das execuções é por crimes não violentos, como tráfico de drogas leve.
**Análise FORTIS: o liberal-conservadorismo contra o autoritarismo**
Do ponto de vista liberal-conservador, a Arábia Saudita revela uma contradição profunda. De um lado, o reino é um aliado estratégico dos Estados Unidos e da Europa, garante a estabilidade do mercado de petróleo e compra bilhões em armamentos. Do outro, opera um sistema de castigos medievais que viola qualquer noção de liberdade individual e devido processo legal. A defesa do livre mercado e do estado mínimo não pode ser usada como escudo para regimes que matam seus cidadãos sem julgamento. A verdadeira liberdade econômica depende de um Estado de Direito que proteja a vida e a propriedade. Sem isso, o capitalismo degenera em cleptocracia.
O “duplo castigo” é um exemplo perfeito de como o autoritarismo usa a tecnologia para ampliar o terror. As redes sociais, ferramentas de liberdade no Ocidente, são usadas como armas de humilhação no Oriente Médio. A FORTIS NEWS defende que a comunidade internacional, especialmente os países conservadores que pregam valores de família e dignidade humana, não pode se calar diante disso. A soberania nacional tem limites: o massacre de inocentes não é um assunto interno de nenhum país. É preciso pressionar Riad a reformar seu código penal, abolir a pena de morte para crimes não violentos e garantir transparência nas execuções.
**P: Por que a Arábia Saudita executa tantas pessoas?** R: O país adota a sharia como base legal, mas a aplicação é discricionária e política. A monarquia usa a pena de morte como instrumento de controle social, especialmente contra minorias xiitas e dissidentes. Organizações como a Human Rights Watch apontam que o aumento das execuções coincide com a consolidação do poder de Mohammed bin Salman.
**P: O que significa “duplo castigo”?** R: O termo se refere ao sofrimento adicional causado pela forma como as famílias são informadas das execuções — geralmente por redes sociais, sem aviso prévio ou direito ao corpo. Além da perda do ente querido, sofrem humilhação pública e trauma psicológico.
**P: Como as famílias são informadas?** R: A Anistia Internacional documentou dezenas de casos onde parentes descobriram a execução por tweets de ativistas, mensagens de WhatsApp ou grupos de Telegram. O governo não emite comunicados oficiais individuais. Em muitos casos, os corpos são enterrados em valas comuns e nunca são devolvidos.
**P: O que a comunidade internacional faz?** R: A pressão diplomática existe, mas é inconsistente. Os EUA e a União Europeia frequentemente criticam as execuções, mas continuam a vender armas e a manter relações comerciais. A FORTIS NEWS defende que o Ocidente condicione acordos comerciais a reformas no sistema judiciário saudita.
**P: Há chance de mudança no curto prazo?** R: Pouca. A Visão 2030 de MBS modernizou a economia, mas não tocou na estrutura de poder absoluto. Enquanto a família real depender da sharia para legitimar seu domínio, a pena de morte continuará sendo usada como ferramenta política.
Por Renan Filho · 2026-09-26