Em discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas nesta quinta-feira (24), a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que o país está em processo de transição para uma “democracia plena”. A declaração, no entanto, não foi acompanhada de nenhum cronograma para eleições presidenciais ou parlamentares.
A fala de Rodríguez ocorre em um momento em que a Venezuela completa três anos sem eleições presidenciais livres e competitivas. O último pleito, em 2024, foi boicotado pela oposição e não teve reconhecimento internacional. Desde então, o governo de Nicolás Maduro mantém o controle absoluto dos poderes, sem qualquer sinal de abertura política.
“A democracia plena não se decreta em discursos, se constrói com instituições independentes, alternância de poder e respeito ao voto popular”, analisa a FORTIS NEWS com base no histórico do país. A Venezuela ocupa a 174ª posição no índice de Democracia da Economist Intelligence Unit (2025), classificada como regime autoritário.
Delcy Rodríguez não mencionou uma data para novas eleições. Em vez disso, concentrou seu discurso em críticas às sanções internacionais e à “ingerência estrangeira”. A fala foi de tom ideológico, defendendo o modelo chavista como “a verdadeira democracia participativa”, sem qualquer menção a reformas que garantam competitividade eleitoral.
A ausência de um calendário eleitoral reforça o padrão do regime: desde 2018, Maduro adia pleitos, persegue opositores e controla o Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Em 2024, a candidatura da principal líder da oposição, María Corina Machado, foi inelegível por decisão administrativa. A ONU, por meio de seu Alto Comissariado para os Direitos Humanos, já documentou mais de 300 presos políticos no país.
Por que isso importa para a América Latina? A Venezuela continua sendo a maior crise migratória da região, com mais de 7,7 milhões de venezuelanos refugiados, segundo a ONU. A promessa de transição, sem ações concretas, mantém a instabilidade e sobrecarrega países como Colômbia, Peru e Brasil. A FORTIS NEWS lembra que o governo brasileiro, sob Lula, tem adotado uma postura ambígua — reconhece Maduro, mas não defende abertamente sanções.
A retórica de Rodríguez também contrasta com os dados econômicos. A inflação acumulada em 12 meses na Venezuela ultrapassa 400%, e o PIB encolheu 75% desde 2013. A população vive com salário mínimo equivalente a menos de US$ 5 por mês. O Estado, controlado pelo partido único, tributa pesadamente uma economia dolarizada de fato, mas sem contrapartida em serviços públicos.
Análise FORTIS: A fala de Delcy Rodríguez na ONU é uma cortina de fumaça. O regime chavista usa o palco internacional para tentar legitimidade, enquanto internamente sufoca qualquer dissidência. A “democracia plena” que ela promete é a velha conhecida: um sistema onde o governo controla as regras do jogo, persegue adversários e anula eleições incômodas. A ausência de data para as eleições não é um detalhe — é a própria essência do autoritarismo.
O discurso ignora os fatos: não há separação de poderes na Venezuela, a imprensa é censurada, e a economia está destruída justamente pela intervenção estatal. A FORTIS NEWS rejeita a narrativa de que sanções são a causa da crise. Sanções existem em resposta a abusos. A causa primária é o estatismo, o controle cambial, as nacionalizações e a corrupção generalizada.
Contraponto: O governo venezuelano alega que as sanções econômicas dos EUA e da União Europeia impedem o desenvolvimento do país e que a “democracia participativa” é uma alternativa à democracia liberal. Porém, dados do Banco Central da Venezuela — controlado pelo governo — mostram que a economia já estava em colapso antes das sanções mais duras, em 2017. A dívida externa venezuelana, que chegou a US$ 150 bilhões, foi fruto de má gestão e corrupção, não de bloqueios externos.
A própria ONU, em relatório de 2025, apontou que o governo venezuelano viola sistematicamente os direitos políticos. A promessa de transição, portanto, não passa de um artifício diplomático para tentar reverter o isolamento do regime. Maduro, sem apoio de grandes potências, busca na retórica o que não tem em fatos.
Por Renan Filho · 2026-09-24