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Ciencia

China transforma zona rural de cultivo de batatas em epicentro de competição tecnológica com EUA

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-28

Uma região agrícola remota na província de Gansu tornou-se laboratório vivo de inovação em biotecnologia e agricultura de precisão, enquanto Pequim busca reduzir dependência de insumos estrangeiros e ampliar influência sobre a América Latina.

**Lead**

Uma área rural no noroeste da China, historicamente dedicada ao cultivo de batatas, está sendo convertida em um polo de pesquisa e desenvolvimento agrícola de ponta. O projeto, coordenado por institutos ligados ao governo chinês, integra melhoramento genético, sensoriamento remoto, inteligência artificial e drones para criar um modelo de produção que possa ser replicado em países da América Latina. A iniciativa insere-se na estratégia mais ampla de Pequim de competir com os Estados Unidos no domínio das tecnologias aplicadas à segurança alimentar e à bioeconomia.

**Contexto**

A região escolhida fica na província de Gansu, uma das mais secas e pobres da China, mas que responde por parcela expressiva da produção nacional de batata. Nos últimos anos, o governo central destinou investimentos vultosos para modernizar a infraestrutura local: estufas climatizadas, sistemas de irrigação inteligente, laboratórios de edição genética e centros de processamento de dados agrícolas foram instalados em áreas que antes dependiam de técnicas tradicionais.

A batata é um alimento estratégico para a China — o país é o maior produtor mundial do tubérculo, com mais de 90 milhões de toneladas anuais, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O grão (na verdade um tubérculo) ganhou prioridade no plano quinquenal de 2021-2025 como cultura-chave para a segurança alimentar, especialmente diante das tensões comerciais com os Estados Unidos e da necessidade de reduzir a importação de sementes e insumos.

O projeto em Gansu envolve pelo menos três institutos de pesquisa vinculados à Academia Chinesa de Ciências Agrícolas e à Universidade de Agricultura da China. Eles trabalham no desenvolvimento de variedades resistentes a pragas, com maior teor de amido e adaptadas a climas semiáridos — características que interessam diretamente a países latino-americanos como Peru, Bolívia, Colômbia e México, onde a batata é base da dieta e a agricultura enfrenta desafios semelhantes.

Além do melhoramento genético, a zona rural foi equipada com sensores de solo, estações meteorológicas automatizadas e algoritmos de aprendizado de máquina que orientam o plantio, a irrigação e a colheita. Drones monitoram a saúde das lavouras em tempo real, e tratores autônomos realizam operações de preparo do solo. O objetivo declarado por autoridades chinesas é criar um “sistema de produção fechado” que elimine a dependência de fertilizantes e sementes importados, sobretudo dos Estados Unidos.

**Análise**

A transformação de uma zona rural de batatas em centro de competição tecnológica reflete uma mudança profunda na geopolítica da inovação. Enquanto os Estados Unidos concentram seus esforços em semicondutores e inteligência artificial, a China aposta na biotecnologia agrícola como vetor de influência global. O país já lidera depósitos de patentes em edição genética de plantas e detém o maior banco de germoplasma de batata do mundo, com mais de 5 mil variedades.

Para a América Latina, a oferta chinesa de tecnologia agrícola “adaptada ao Sul Global” representa uma alternativa concreta aos pacotes tecnológicos tradicionalmente dominados por empresas americanas como Monsanto (agora Bayer) e Corteva. Em 2024, a China firmou acordos de cooperação técnica com Peru e Bolívia para transferência de variedades de batata resistentes à seca e ao calor — condições que se agravam com as mudanças climáticas. O projeto em Gansu serve como vitrine dessas capacidades.

A competição com os EUA, no entanto, não se limita à oferta de sementes. A China também desenvolve sistemas de agricultura de precisão baseados em plataformas de internet das coisas (IoT) e big data, que podem ser vendidos como pacotes completos para governos latino-americanos. Isso cria uma dependência tecnológica semelhante à que os EUA mantiveram por décadas, mas com um viés político mais explícito: Pequim vincula a cooperação agrícola a alinhamentos diplomáticos, como o apoio à Iniciativa do Cinturão e Rota.

Especialistas do setor apontam que a aposta chinesa na batata não é aleatória. O tubérculo é um alimento de baixo custo e alto valor calórico, essencial para populações vulneráveis. Ao dominar sua cadeia produtiva — da semente ao processamento — a China ganha influência sobre a segurança alimentar de países que dependem de importações. Ao mesmo tempo, reduz sua própria vulnerabilidade: hoje, o país importa cerca de 30% das sementes de batata de alta qualidade, a maioria dos EUA e da Europa. O projeto em Gansu busca zerar essa dependência até 2030.

**Fontes**

As informações deste artigo baseiam-se em relatórios públicos do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China, comunicados da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), artigos do jornal estatal chinês Global Times e análises do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), com sede em Washington. Não foram utilizadas fontes anônimas nem entrevistas exclusivas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.