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Internacional

China busca pôr fim à guerra com o Irã, mas segue financiando o caos na América Latina: o duplo padrão de Pequim

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

Enquanto Pequim se apresenta como mediadora pela paz no Oriente Médio, seus investimentos na América Latina sustentam regimes que corroem a democracia e o livre mercado. O que a diplomacia chinesa realmente quer?

A China voltou a ocupar o centro do palco geopolítico ao anunciar, em setembro de 2026, uma nova rodada de negociações para mediar o conflito entre Irã e as potências ocidentais. A iniciativa, liderada pelo Ministério das Relações Exteriores chinês, foi recebida com cautela em Washington e Bruxelas, mas com expectativa em Teerã. Pequim, no entanto, repete um discurso de pacificação global enquanto aprofunda sua influência na América Latina por meio de investimentos que pouco contribuem para o desenvolvimento institucional da região.

A proposta chinesa, apresentada em uma reunião de chanceleres em Pequim no dia 22 de setembro, prevê um cessar-fogo imediato e a retomada do acordo nuclear de 2015, com ajustes que atendam às demandas iranianas. Segundo comunicado oficial do governo chinês, a medida busca "reduzir as tensões e promover a estabilidade no Golfo Pérsico". A iniciativa ocorre em meio ao agravamento do conflito, que já deixou mais de 12 mil mortos em 2026, segundo dados da ONU.

O movimento de Pequim, contudo, não é desinteressado. A China importa cerca de 90% do petróleo que consome, e o Irã é um dos seus principais fornecedores, respondendo por 12% do total. A estabilidade na região é vital para a segurança energética chinesa, que sustenta seu crescimento econômico. Assim, a mediação não é apenas um gesto humanitário, mas uma estratégia de sobrevivência econômica.

Enquanto isso, na América Latina, a China adota uma postura bem diferente. Em vez de mediar conflitos, Pequim financia projetos de infraestrutura em países como Venezuela, Bolívia e Nicarágua, frequentemente em troca de acesso a recursos naturais e influência política. Na Venezuela, por exemplo, a China já emprestou mais de US$ 60 bilhões desde 2007, grande parte sem transparência e com cláusulas que comprometem a soberania nacional.

Na Bolívia, o governo de Luis Arce firmou, em agosto de 2026, um acordo de US$ 2,5 bilhões com a estatal chinesa CAMC Engineering para a construção de uma ferrovia ligando o país ao Atlântico. O projeto, segundo especialistas, é inviável economicamente e servirá apenas para escoar minérios para a indústria chinesa, sem gerar desenvolvimento local. O custo da obra, financiado com recursos públicos bolivianos, representa 15% do PIB do país.

Na Nicarágua, o regime de Daniel Ortega entregou à China a administração de um canal interoceânico, um projeto que já consumiu US$ 1,2 bilhão e não saiu do papel. Enquanto isso, o país afunda em uma crise econômica e política, com a oposição perseguida e a imprensa silenciada. A China, que se apresenta como defensora da soberania nacional, tem sido um dos principais esteios do regime orteguista.

O contraste é evidente: no Oriente Médio, a China busca estabilidade para garantir seus interesses energéticos; na América Latina, ela explora a fragilidade institucional para expandir sua influência. A diferença não é ideológica, mas estratégica. Pequim trata cada região de acordo com seus interesses econômicos e geopolíticos, sem qualquer compromisso com valores como democracia, direitos humanos ou livre mercado.

Por que isso importa para o Brasil e para a América Latina? Porque a região tem sido tratada pela China como um quintal de exploração, não como um parceiro de desenvolvimento. Os acordos firmados são assimétricos, com cláusulas que favorecem Pequim e comprometem a autonomia dos países latino-americanos. O Brasil, maior economia da região, não está imune: a China é o principal parceiro comercial do país, mas a relação é marcada pela exportação de commodities e importação de manufaturados, um modelo que reforça o subdesenvolvimento.

A análise FORTIS é clara: a China não é uma potência benevolente, mas um ator que age de acordo com seus interesses. A mediação no Irã é louvável, desde que não sirva apenas para garantir o fluxo de petróleo a baixo custo. Na América Latina, Pequim deveria adotar a mesma postura de pacificação, incentivando o diálogo e a estabilidade política, em vez de financiar regimes autoritários que corroem as instituições.

O contraponto, é preciso registrar, é que a China também investe em projetos de energia renovável e infraestrutura em países como Argentina e Chile, com potencial de gerar empregos. No entanto, esses investimentos são condicionados a acordos que transferem tecnologia e dados, criando uma dependência tecnológica que compromete a soberania digital dos países. O livre mercado, defendido pelo FORTIS, não se opõe à cooperação internacional, mas exige transparência e equilíbrio nas relações.

A América Latina precisa acordar para o jogo geopolítico. Enquanto a China se apresenta como mediadora da paz no mundo, ela financia o caos na região, com regimes que desrespeitam os direitos de propriedade, a liberdade de imprensa e o Estado de Direito. O Brasil, em particular, deve reavaliar sua relação com Pequim, buscando acordos que realmente promovam o desenvolvimento, e não apenas a exploração de recursos.

O futuro da região depende de líderes que coloquem os interesses nacionais acima de alianças ideológicas. A China não é um inimigo, mas também não é um salvador. É uma potência com interesses próprios, que merece ser tratada com respeito, mas também com ceticismo. O FORTIS NEWS seguirá monitorando os desdobramentos dessa diplomacia de dupla face, cobrando transparência e defendendo os valores que sustentam uma sociedade livre e próspera.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.