A América Latina entra no último trimestre de 2026 marcada por contrastes econômicos e políticos que expõem o velho dilema entre estado mínimo e estatismo. De um lado, a Argentina de Javier Milei colhe os primeiros frutos de uma terapia de choque ortodoxa — corte de gastos, desregulamentação e abertura comercial. Do outro, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva insiste em expandir o Estado, elevar tributos e controlar preços, enquanto a Venezuela de Nicolás Maduro permanece como o exemplo mais acabado do colapso socialista.
Os dados oficiais são implacáveis. Segundo o último relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado em setembro de 2026, a Argentina deve crescer 4,2% neste ano, após dois anos de contração. A inflação, que chegou a 211% em 2024, caiu para 38% em agosto, e o risco-país recuou de 2.800 para 1.100 pontos. O ajuste fiscal — redução do déficit primário de 3,5% do PIB para 0,8% — foi alcançado sem default e com aumento da arrecadação real, graças à formalização de milhões de trabalhadores.
Em contraste, o Brasil registra crescimento medíocre de 1,9% no acumulado do ano, segundo o Banco Central. A dívida pública bruta ultrapassou 82% do PIB, e o déficit nominal chega a 7,3% — o maior entre as grandes economias emergentes. A carga tributária, já em 34% do PIB, subiu mais 0,5 ponto percentual com a recente recriação de tributos sobre combustíveis e a ampliação do Imposto de Renda sobre lucros e dividendos. O resultado é a menor taxa de investimento privado em uma década: apenas 16% do PIB, contra 22% da média dos pares asiáticos.
Por que isso importa? A América Latina responde por 8% do PIB global, mas concentra 25% dos homicídios do mundo e 40% da desigualdade de renda. A escolha entre reformas pró-mercado e intervencionismo não é apenas ideológica: ela determina se milhões de jovens terão emprego formal, se a pobreza será reduzida e se a democracia sobreviverá ao desencanto popular. O exemplo argentino mostra que o ajuste dói no curto prazo, mas gera credibilidade e atrai investimento estrangeiro. O Brasil, ao contrário, caminha para mais uma década perdida, com crescimento abaixo de 2% e estagnação da produtividade.
Análise FORTIS: A narrativa de que o Estado precisa gastar mais para combater a desigualdade é factualmente falsa. Dados da CEPAL mostram que, entre 2003 e 2013 — período de boom de commodities — os países que mais reduziram a pobreza foram Chile (de 45% para 18%) e Peru (de 58% para 25%), ambos com reformas de livre mercado e responsabilidade fiscal. Já o Brasil, mesmo com programas sociais robustos, reduziu a pobreza de 38% para 28% no mesmo período, patamar que voltou a subir após 2014. O gasto social brasileiro é ineficiente: cada real transferido pelo Bolsa Família gera apenas R$ 0,30 de aumento na renda permanente dos beneficiários, segundo estudo do IPEA. O restante é consumido por burocracia e corrupção.
Contraponto: Críticos apontam que o ajuste argentino pode ser insustentável sem ancoragem cambial e que a dolarização proposta por Milei ainda não ocorreu. De fato, o câmbio oficial ainda convive com um paralelo que dobra o valor do dólar, e as reservas internacionais do Banco Central são negativas em US$ 8 bilhões. No entanto, a diferença entre o discurso e a prática de Milei é menor do que a de seus antecessores. Ele cortou 40% dos ministérios, eliminou 30 mil cargos comissionados e zerou o déficit primário em seis meses — algo que Kirchner e Macri não conseguiram em uma década. O risco é de que a âncora fiscal se dissolva se o Congresso aprovar novos gastos eleitoreiros em ano de eleições legislativas.
Por Renan Filho · 2026-09-26