O setor automotivo europeu vive o pior momento em décadas. Altos custos de energia, regulações ambientais cada vez mais rígidas e a invasão de veículos elétricos chineses a preços competitivos levaram marcas tradicionais como Volkswagen, Stellantis e Renault a perderem participação de mercado inclusive em casa. Dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) mostram que as vendas de carros novos na Europa caíram 4,5% em 2025 em relação ao ano anterior, enquanto as importações de veículos chineses cresceram mais de 30% no mesmo período.
No entanto, a ameaça de uma guerra de grandes proporções — seja no Estreito de Taiwan, entre a OTAN e a Rússia, ou no Oriente Médio — está forçando as montadoras a repensar suas cadeias de suprimentos globais. O risco de ruptura no fornecimento de semicondutores, lítio e outros componentes críticos vindos da Ásia torna a América Latina uma alternativa estratégica cada vez mais atraente. A região já abriga fábricas da Volkswagen no Brasil, da Stellantis no México e da Renault na Argentina, e possui reservas de lítio no Chile e na Argentina que são essenciais para a produção de baterias.
Por que isso importa? Porque para o liberal-conservador, o movimento de empresas em direção a mercados com menos intervencionismo é um sinal de que o livre mercado, mesmo que impulsionado por crises, ainda encontra caminhos. Países como Brasil e México têm a oportunidade de se posicionar como hubs de exportação de veículos e peças, reduzindo a dependência europeia da Ásia. Mas isso só será possível se os governos latino-americanos abandonarem a velha política de altos impostos e burocracia asfixiante que historicamente afugenta investidores.
Análise FORTIS: A narrativa de que “a guerra é ruim para os negócios” é verdadeira apenas em parte. Conflitos geopolíticos reordenam cadeias de valor, e quem se adapta primeiro colhe os frutos. As montadoras europeias, acostumadas a depender de subsídios estatais e protecionismo, estão sendo forçadas a buscar eficiência real. A América Latina, com sua mão de obra relativamente barata e recursos naturais abundantes, pode se beneficiar, desde que seus governos não repitam os erros do passado: gastar mal, tributar demais e entregar infraestrutura precária.
Contraponto: Críticos apontam que a instabilidade política e a falta de segurança jurídica em países como Argentina e Brasil afastam investimentos de longo prazo. Ainda que o Brasil tenha aprovado a reforma tributária, o custo Brasil continua alto. Além disso, a ameaça de guerra pode ser exagerada — o comércio global já mostrou resiliência após choques anteriores. Mas os dados da consultoria Bain & Company indicam que 70% das montadoras europeias já consideram expandir ou realocar fábricas para fora da União Europeia até 2030, com a América Latina como segunda opção favorita, atrás apenas do Leste Europeu.
Por Renan Filho · 2026-09-25