O mapa político da Alemanha está se redesenhando de forma que muitos analistas preferem ignorar. Nos estados que compunham a extinta República Democrática Alemã (RDA), o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) – classificado como de extrema direita pelo serviço de inteligência interno alemão – alcança consistentemente entre 25% e 35% das intenções de voto, números que o colocam como primeira força em regiões como Saxônia, Turíngia e Brandemburgo. Para um observador latino-americano, acostumado com o discurso de que o autoritarismo de esquerda gera automaticamente uma esquerda democrática, o dado é um choque de realidade.
O fenômeno não é acidental. A RDA, sob regime comunista, destruiu a propriedade privada, estatizou a economia e suprimiu qualquer expressão de identidade local ou religiosa. Quando o Muro caiu em 1989, o choque foi duplo: a população descobriu não apenas a liberdade, mas também a humilhação econômica. Empresas estatais obsoletas foram fechadas ou compradas por conglomerados da Alemanha Ocidental a preços de liquidação. O desemprego explodiu. A taxa de desemprego no leste chegou a 18% no início dos anos 2000, enquanto o oeste girava em torno de 8%, segundo dados oficiais do Bundesagentur für Arbeit. O resultado foi uma geração inteira que associou a reunificação à perda de status, à emigração dos mais jovens e à desindustrialização.
A resposta do governo federal alemão foi o oposto do que o liberalismo clássico recomendaria. Em vez de cortar impostos e desregulamentar para atrair investimento, Berlim optou por um gigantesco programa de transferências – o chamado "Imposto de Solidariedade" (Solidaritätszuschlag). Bilhões de euros foram injetados em infraestrutura, subsídios e aposentadorias. O resultado? O leste alemão se tornou uma economia dependente de transferências estatais, com um PIB per capita que ainda hoje é cerca de 20% inferior ao do oeste. O estado gastou mal, tributou demais e entregou pouco. A população, que já havia vivido sob o coletivismo forçado, viu o Estado voltar a ditar as regras – agora sob a forma de um assistencialismo burocrático vindo de Berlim.
Por que isso importa para a América Latina? A resposta é direta: o mesmo padrão se repete em países como Brasil, Argentina e Chile. O estado inchado, que promete desenvolvimento via subsídios e empresas estatais, gera dependência e ressentimento. A esquerda latino-americana adora apontar o dedo para o "perigo fascista" no leste alemão, mas se recusa a reconhecer que o solo fértil para o populismo radical é preparado por décadas de fracasso estatal. O eleitor da AfD na Saxônia não é um "nazista escondido"; é um trabalhador que viu sua fábrica fechar, seu filho migrar para Munique e sua cidade ser invadida por uma imigração descontrolada que ele nunca foi consultado sobre aceitar.
A Análise FORTIS, baseada em dados do Eurobarômetro e do instituto de pesquisas Infratest dimap, mostra que as principais motivações do eleitor da AfD são: a) rejeição à imigração em massa (72% dos eleitores citam o tema como prioritário); b) insatisfação com a burocracia da União Europeia (65%); c) nostalgia não pelo comunismo, mas pela segurança social e identitária perdida (48%). A esquerda tenta reduzir o fenômeno a "racismo", mas os números mostram que a rejeição é à política de portas abertas de Angela Merkel em 2015, que trouxe mais de 1,2 milhão de requerentes de asilo – a maioria para o oeste, mas com custos e tensões sentidos em todo o país. Quando o estado falha em integrar e a elite política ignora o pleito popular, o radicalismo cresce.
Contraponto: críticos apontam que a AfD possui alas abertamente revisionistas quanto ao período nazista e que parte de seu discurso viola a constituição alemã. É verdade. O serviço de inteligência alemão monitora a ala juvenil do partido (Junge Alternative) como "extremista comprovado". No entanto, criminalizar o partido não resolve a raiz do problema. Em 2023, o governo federal tentou banir a AfD, mas a própria corte constitucional sinalizou que a medida seria juridicamente frágil. Onde a censura e o estado policial falharam, o livre debate deveria prevalecer. A solução liberal-conservadora não é silenciar o descontentamento, mas remover as causas: menos estado, mais liberdade econômica, controle de fronteiras real e respeito à soberania nacional. A América Latina que repete o erro de achar que mais estado resolve os problemas gerados pelo estado está condenada a ver seus próprios "bastiões da extrema direita" crescerem.
Por Renan Filho · 2026-09-25