Estados Unidos e Dinamarca assinaram nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, um acordo estratégico sobre a Groenlândia, colocando fim a um impasse diplomático que se arrastou por mais de um ano com ameaças do presidente americano, Donald Trump. O pacto, anunciado em coletiva de imprensa conjunta em Nuuk, capital do território autônomo dinamarquês, não envolve compra do território, mas sim um arranjo complexo de arrendamento militar, exploração mineral e garantias de soberania.
Conforme o texto divulgado pela Casa Branca, o acordo prevê a ampliação da base aérea de Pituffik, a antiga Thule Air Base, utilizada há décadas pela OTAN. Além disso, foi criado um fundo de desenvolvimento estratégico de US$ 12 bilhões, financiado 60% por Washington e 40% por Copenhague, destinado a modernizar portos, estradas e gerar empregos locais. Em troca, os EUA garantem os direitos de exploração conjunta de terras raras e minerais críticos, como ouro, zinco e urânio, proibindo a participação de empresas chinesas em qualquer projeto de infraestrutura sensível.
A Dinamarca manteve nominalmente toda a sua soberania administrativa sobre a ilha. No entanto, na prática, abre-se uma zona de livre comércio e segurança militar bilateral que garante aos americanos privilégios logísticos no Ártico, uma região que se tornou central no xadrez global após a Rússia e a China expandirem sua presença. O primeiro-ministro dinamarquês afirmou aos jornalistas que o acordo é "vantajoso para o povo groenlandês" e que o pagamento de royalties deve transformar a economia local.
Porta-vozes do Ministério do Comércio da Groenlândia confirmaram que a exploração de terras raras começa imediatamente, com a primeira joint venture entre a empresa estatal de mineração e um consórcio americano. Estima-se que a produção anual atinja 20 mil toneladas até 2028, o que representaria 10% do mercado mundial, hoje dominado pela China (que controla cerca de 85% do processamento global). Essa briga por suprimentos altera profundamente a dinâmica comercial para a América Latina.
Por que isso importa para os latino-americanos? O efeito mais imediato é a pressão sobre os preços internacionais de minerais críticos. Com a nova oferta, os preços tendem a cair no médio prazo, o que pode prejudicar projetos nascentes no Brasil e na Argentina, que tentam reduzir sua dependência do mercado asiático. Entretanto, o efeito mais profundo é comparativo: a Groenlândia conseguiu negociar um acordo de 15 anos com royalties garantidos, enquanto na América Latina, as riquezas minerais ficam presas em infindáveis disputas de licenciamento ambiental e tributação confiscatória.
No Brasil, por exemplo, a exploração de terras raras em Goiás e na Amazônia depende de licenças que levam em média 10 a 15 anos para serem obtidas. Dados oficiais do Ministério de Minas e Energia indicam que o país exportou apenas cerca de US$ 2 milhões em terras raras não processadas em 2025, enquanto o Chile e o Peru lidam com a mesma burocracia para minerais como lítio e cobre. O caso da Groenlândia demonstra que é possível atrair bilhões em investimento sem entregar a soberania, desde que o Estado se comporte como parceiro e não como gestor de benesses.
A linha editorial liberal-conservadora enxerga aqui uma lição duríssima: o estado brasileiro e seus vizinhos gastam mal, tributa demais e entregam pouco. Enquanto Copenhague e Washington desenharam um quadro jurídico com clareza de regras, desoneração de royalties de exportação para novos investimentos e parcerias público-privadas, as nações latino-americanas ainda discutem quem controlará o chamado "enriquecimento ilícito" das mineradoras. O resultado é um capital internacional que foge do entorno do Atlântico Sul para o Ártico, justamente onde a taxa de retorno é mais previsível.
O contraponto é apresentado pela esquerda latino-americana e por analistas europeus céticos: a aposta em negociação com os EUA seria uma forma de subordinação imperialista. Mas os fatos contradizem essa narrativa. A Dinamarca não perdeu território, não se tornou vassala, e muito pelo contrário, a ilha ganhou um fundo de infraestrutura que jamais seria financiado pelos cofres públicos de um país pequeno. A diferença é que a economia dinamarquesa tem competência institucional para fiscalizar acordos. Em contraste, na América Latina, qualquer parceria semelhante seria corroída pela corrupção endêmica e pela má gestão crônica, fruto da ausência de freios institucionais robustos.
O acordo de 22 de setembro de 2026 marca o início de uma era em que o Ártico será mais atraente para o capital produtivo do que o Atlântico Sul. Os governos da América Latina podem escolher entre modernizar seus marcos regulatórios e cobrar menos impostos, ou assistir à riqueza de seu subsolo permanecer intocada pela burocracia. Aos liberais, a Groenlândia não é apenas uma vitória da diplomacia pragmática; é um atestado de que a liberdade econômica supera o caráter ideológico de qualquer discurso de soberania.
Por Renan Filho · 2026-09-22