O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, discursou na Assembleia Geral da ONU em Nova York na terça-feira (22) e voltou a culpar “a desigualdade e a desinformação” pela crise migratória que afeta a cidade autónoma de Ceuta. A declaração foi feita no mesmo dia em que a Guardia Civil registou a entrada de mais de 800 imigrantes ilegais na fronteira do Tarajal, segundo dados oficiais do Ministério do Interior espanhol.
Sánchez afirmou que “a desigualdade global e a desinformação nas redes sociais estão a gerar fluxos migratórios descontrolados” e pediu “uma resposta coordenada da União Europeia”. Mas omitiu que Marrocos, país que mantém um acordo bilateral com Espanha desde 2022, reabriu a torneira migratória precisamente no momento em que Madrid hesita em reconhecer a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental.
A crise de Ceuta não é um fenómeno meteorológico. É uma escolha política. Em Marrocos, o governo de Aziz Akhannouch decide, em função das suas conveniências diplomáticas, se fecha ou abre a fronteira. Sánchez não disse isso. Em vez disso, falou em “desinformação” — termo vago que serve para desviar a atenção do facto de que a sua própria política de acolhimento, com subsídios generosos a imigrantes ilegais, funciona como um íman.
Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a população estrangeira em Ceuta cresceu 42% entre 2020 e 2025, enquanto a taxa de desemprego local disparou para 28%. Os recursos públicos para habitação e saúde estão sobrecarregados. Sánchez, no entanto, prefere atribuir a crise a causas externas: a pobreza em África e as “fake news” que, segundo ele, incentivam a travessia.
O discurso de Sánchez em Nova York insere-se numa estratégia de marketing político. O presidente do governo sabe que a esquerda europeia aplaude qualquer menção a “desigualdade”. Mas a realidade é que a fronteira de Ceuta está sob controlo de Marrocos, e Madrid não tem a coragem de exigir o cumprimento dos acordos de readmissão. Em vez disso, gasta milhões de euros em subvenções a ONG que facilitam a integração de imigrantes ilegais, enquanto as forças de segurança são obrigadas a conter avalanches humanas com meios insuficientes.
A imprensa internacional noticiou que Sánchez pediu “solidariedade europeia”. Mas a UE já transferiu mais de 200 milhões de euros para Espanha no âmbito do Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI) desde 2021. O problema não é dinheiro. É gestão. O governo espanhol gasta mal, tributa demais e entrega pouco — e a crise de Ceuta é a prova disso.
A verdade factual é que a crise migratória em Ceuta tem uma causa imediata: a decisão de Marrocos de não conter os fluxos. E tem uma causa estrutural: a política de atração de imigrantes ilegais promovida pelo governo Sánchez, que oferece acesso a saúde, educação e subsídios a quem entra ilegalmente. Enquanto isso não for dito, qualquer discurso em Nova York será apenas retórica vazia.
O governo espanhol deveria, em vez de culpar a desigualdade, exigir que Marrocos cumpra os acordos de readmissão assinados. Deveria também rever a sua política de subsídios, que transforma Ceuta num destino atrativo para a imigração ilegal. Mas isso exigiria coragem política — e Sánchez prefere falar de “desinformação” a assumir a responsabilidade.
Por Renan Filho · 2026-09-23