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Economia

OCDE aponta Espanha como a grande economia do euro onde a vida mais se encarecerá com a guerra no Irã

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

Enquanto Bruxelas ensaia discursos de solidariedade, a OCDE já projeta o prejuízo real: a Espanha será o país da zona do euro mais atingido pela alta de preços decorrente do conflito no Oriente Médio. O governo Sánchez, que apostou em intervencionismo e gasto público, colhe agora o fruto amargo da falta de competitividade.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou nesta quarta-feira (23) um relatório preliminar que coloca a Espanha como a economia mais vulnerável da zona do euro diante do agravamento do conflito no Irã. O estudo, intitulado "Impactos Econômicos do Conflito no Oriente Médio sobre as Economias da OCDE", projeta que o custo de vida na Espanha pode disparar até 4,2 pontos percentuais acima da média da zona do euro nos próximos 12 meses, caso as hostilidades se intensifiquem e interrompam o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz.

O dado não é um alarmismo de ocasião. A OCDE utiliza modelos de insumo-produto e elasticidade de preços para chegar a essa conclusão. O que os números revelam é que a economia espanhola, fortemente dependente de importações de energia e com uma base industrial encolhida por anos de excesso de regulação e carga tributária, não tem resiliência para absorver choques externos. Enquanto a Alemanha, com sua indústria diversificada, e a França, com sua matriz nuclear, conseguem mitigar parcialmente o impacto, a Espanha fica exposta como uma folha ao vento.

O governo de Pedro Sánchez, que já havia elevado a pressão fiscal sobre famílias e empresas a níveis recordes — a carga tributária espanhola atingiu 42,3% do PIB em 2025, segundo dados da própria Agência Tributária —, agora se vê sem margem para novos estímulos. O Banco da Espanha já alertou que a dívida pública supera os 118% do PIB, e qualquer tentativa de subsidiar a energia para conter a inflação significaria mais endividamento ou mais impostos. A equação é cruel, mas previsível.

A dependência energética espanhola é um fato estrutural. O país importa cerca de 73% de toda a energia que consome, e boa parte do gás natural liquefeito (GNL) que chega aos terminais de Barcelona e Bilbao ainda transita por rotas que passam perto de áreas de conflito. Com o Irã na rota de colisão com Israel e os EUA, o prêmio de risco do petróleo já subiu 18% desde o início do mês, e a OCDE projeta que o barril pode chegar a 145 dólares em cenário de escalada. Para a Espanha, cada 10 dólares de aumento no barril representa um custo adicional de 0,6% do PIB.

**Por que isso importa** A questão central não é apenas o preço do diesel ou da gasolina. O encarecimento da vida é um fenômeno sistêmico. Quando a energia sobe, toda a cadeia de produção se ajusta: alimentos, transportes, aluguéis, insumos industriais. A inflação na Espanha já estava em 4,1% em agosto, acima da meta de 2% do Banco Central Europeu. Agora, com o choque do Irã, a OCDE projeta que o índice pode romper a barreira dos 6% já no primeiro trimestre de 2027. Para as famílias espanholas, isso significa perda real de poder de compra, especialmente para aquelas que já gastam mais de 30% da renda com moradia e energia.

**Análise FORTIS** A situação atual da Espanha é um estudo de caso de como más políticas econômicas amplificam choques externos. O governo Sánchez optou por um modelo de estado inchado, com aumento de funcionários públicos em 12% desde 2020, expansão de subsídios ineficientes e uma reforma trabalhista que, ao engessar o mercado, reduziu a produtividade. Dados do Eurostat mostram que a produtividade por hora trabalhada na Espanha cresceu apenas 1,1% entre 2020 e 2025, contra 4,3% na Alemanha e 3,8% na Itália. Sem produtividade, qualquer aumento de custo externo vira inflação interna.

O livre mercado oferece uma saída, mas ela é impopular em curto prazo: desregulamentação do setor energético, redução de impostos sobre combustíveis e eletricidade, e abertura para exploração de fontes próprias, como o gás natural do Saara Ocidental e o potencial eólico offshore. Contudo, o atual governo prefere culpar o capitalismo e a geopolítica, em vez de reconhecer que a vulnerabilidade é fruto de décadas de más escolhas. A OCDE, que não é exatamente uma organização liberal-radical, já recomendou à Espanha, em relatórios anteriores, que reduzisse a burocracia e os encargos trabalhistas para ganhar competitividade. As recomendações foram ignoradas.

**Contraponto** É justo reconhecer que nenhuma economia europeia escapa ilesa de uma guerra no Oriente Médio. A Alemanha, por exemplo, também sofrerá com a alta do petróleo, mas sua indústria química e automotiva tem maior capacidade de repassar custos. A França, com 70% da eletricidade vinda de nucleares, isola parcialmente sua população dos choques do gás. A Espanha, que fechou sete reatores nucleares desde 2012 e apostou tudo em renováveis intermitentes, fica refém do vento e do sol — e, quando eles faltam, queima gás importado a preço de ouro. Não é um acidente. É o resultado de uma política energética ideológica que subestimou a segurança de abastecimento.

Mesmo que o conflito no Irã se resolva rapidamente, a OCDE adverte que o simples aumento da incerteza geopolítica já reduz o investimento estrangeiro na Espanha. Dados do ICEX mostram que o investimento direto estrangeiro caiu 14% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. Empresas não gostam de instabilidade, e a Espanha, com seu governo errático e sua economia vulnerável, está se tornando um destino menos atraente. A guerra no Irã apenas acelera um processo de erosão que já estava em andamento.

**Pergunta 1: O governo espanhol pode fazer algo para mitigar esse impacto imediato?** Sim, mas as medidas eficazes são politicamente custosas para a atual coalizão. Reduzir o IVA da eletricidade e dos combustíveis, suspender temporariamente os encargos parafiscais sobre a energia e acelerar licenças para exploração de gás próprio seriam ações de curto prazo. No entanto, o governo Sánchez depende do apoio de partidos ecologistas e da extrema-esquerda, que se opõem a qualquer flexibilização ambiental. A alternativa keynesiana — mais subsídios e controle de preços — já se mostrou ineficaz em 2022, quando gerou escassez e mercado negro em setores como o de combustíveis.

**Pergunta 2: A Espanha corre risco de recessão por causa disso?** A OCDE não usa o termo "recessão" no relatório preliminar, mas os indicadores são preocupantes. O consumo das famílias já desacelerou para 0,8% no segundo trimestre de 2026, e a confiança do consumidor caiu ao menor nível desde a pandemia. Se a inflação energética se mantiver elevada por mais de seis meses, a economia espanhola pode sim entrar em contração técnica (dois trimestres consecutivos de PIB negativo). O Banco da Espanha estima que o PIB pode cair 0,4% em 2027 no cenário adverso. Para um país com desemprego ainda acima de 11%, isso seria devastador.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.