A roteirista Isabel Peña, conhecida pelo sucesso global da série 'Elite' da Netflix, e a cineasta e escritora Mabel Lozano, vencedora do Prêmio Goya, anunciaram nas últimas horas a união de seus talentos para uma nova obra documental que promete chacoalhar o debate sobre prostituição na Espanha. O projeto, intitulado provisoriamente 'El Castillo', busca expor o que as duas chamam de "fortaleza da impunidade" construída em torno da exploração sexual no país.
Segundo comunicado divulgado pelas artistas em suas redes sociais nesta quinta-feira, 25 de setembro de 2026, o documentário pretende mostrar como a prostituição na Espanha opera em um vácuo legal que protege os clientes e pune as vítimas. "Não se trata de um debate moral, mas de um sistema que permite que mulheres sejam compradas e vendidas com a conivência do Estado", escreveu Peña em sua conta oficial no X (antigo Twitter). A publicação já acumula mais de 45.000 interações em menos de 12 horas.
O timing da iniciativa não poderia ser mais delicado. A Espanha enfrenta, segundo dados oficiais do Ministério do Interior compilados em 2025, um aumento de 18% nas denúncias relacionadas ao tráfico de pessoas com fins de exploração sexual em relação ao ano anterior. No entanto, o número de condenações por esse crime caiu 9% no mesmo período. O contraste alimenta a percepção — amplamente compartilhada por setores liberais e conservadores — de que o sistema judicial espanhol falha em proteger os mais vulneráveis.
**Por que isso importa para a Espanha**
A união de Peña e Lozano representa um raro encontro entre a indústria do entretenimento e o ativismo jurídico-social. Mabel Lozano é conhecida por seu trabalho incansável contra o tráfico de mulheres — seu curta-metragem 'Biografía del cadáver de una mujer' já expôs a rota de exploração que liga América Latina e Europa. Isabel Peña, por sua vez, construiu em 'Elite' uma carreira de sucesso abordando tabus da juventude espanhola, incluindo o consumo de sexo pago.
A proposta do documentário é dupla: primeiro, revelar como o dinheiro de turistas, empresários e funcionários públicos alimenta uma rede que movimenta, segundo estimativas do Banco de España, cerca de 3,7 bilhões de euros por ano na economia subterrânea. Segundo, expor como a legislação ambígua do país permite que os clientes saiam impunes enquanto as mulheres são criminalizadas.
A Espanha é hoje um dos poucos países da União Europeia onde a prostituição não é legal nem ilegal — ela simplesmente existe em um limbo normativo. O modelo, conhecido como "abolicionismo de fachada", permite que o ato sexual pago entre adultos não seja crime, enquanto o proxenetismo e o tráfico são punidos. Na prática, porém, o sistema fracassa. Delegacias especializadas em todo o país relatam uma taxa de elucidação de casos de exploração sexual inferior a 12% em 2025, de acordo com relatório da Secretaria de Estado de Segurança.
**Análise FORTIS: O mercado e a moralidade — o que o Estado faz (ou não) com o dinheiro do contribuinte**
Do ponto de vista liberal-conservador, o problema espanhol não é a falta de leis, mas a má aplicação dos recursos públicos. Enquanto o governo gasta milhões de euros em campanhas de sensibilização e conselhos consultivos sobre igualdade de gênero, as investigações reais sobre tráfico de pessoas continuam subfinanciadas. O orçamento de 2026 para a luta contra o tráfico de seres humanos, conforme o projeto de lei orçamentária em tramitação no Congresso dos Deputados, prevê 47 milhões de euros — mas apenas 12% desse valor são destinados a operações policiais e judiciais. O restante vai para programas de "conscientização" e estudo do fenômeno.
Ou seja: a máquina estatal gasta mal, tributa demais e entrega pouco. O cidadão espanhol paga uma das cargas fiscais mais altas da Europa (38,4% do PIB, segundo dados do Eurostat de 2025) e não vê retorno em segurança pública. O 'El Castillo' que Peña e Lozano querem derrubar talvez não seja apenas um bordel metafórico — mas a própria fortaleza de incompetência do Estado.
**Contraponto: O risco da agenda abolicionista penal**
É preciso reconhecer, no entanto, que a pauta defendida por Peña e Lozano — que, até o momento, não divulgaram detalhes de sua abordagem legal — carrega riscos. A experiência de países como França e Suécia, que adotaram o modelo nórdico de criminalização do cliente, mostra resultados ambíguos. Um estudo da Universidade de Bordeaux de 2024 indicou que, embora as estimativas de prostituição de rua tenham caído 15% na França desde a lei de 2016, a prostituição clandestina e o tráfico migraram para plataformas digitais, tornando-se ainda mais difíceis de monitorar pela polícia.
Há ainda o argumento liberal clássico, defendido por vozes como a da ex-ministra espanhola Esperanza Aguirre, de que a proibição pura e simples do consumo empurra a atividade para o crime organizado e retira a autonomia de mulheres que voluntariamente escolhem atuar no setor. Em declaração à Rádio COPE em junho de 2026, Aguirre afirmou: "A solução não é criminalizar o cliente com multas de 3.000 euros, como se faz em alguns países. A solução é permitir que as mulheres que querem sair da prostituição tenham alternativas reais de trabalho e habitação, e isso não se resolve com mais leis, mas com menos Estado e mais mercado flexível".
**1. O documentário 'El Castillo' já tem data de lançamento e distribuidora confirmadas?** R: Até o momento, Isabel Peña e Mabel Lozano não anunciaram data de estreia ou plataforma de distribuição. O projeto está em fase de captação de recursos e pesquisa, segundo as artistas. A expectativa do mercado audiovisual espanhol é que a obra seja finalizada para o segundo semestre de 2027, com possibilidade de exibição em festivais de cinema e posterior acordo com serviços de streaming, dada a capacidade de alcance de Peña no mercado global.
Por Renan Filho · 2026-09-25