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Internacional

Espanha testa escudo antiaéreo a 12 milhas de Marrocos: dissuasão ou provocação?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

As Forças Armadas da Espanha iniciaram exercícios de defesa aérea nas águas do Mediterrâneo, a poucos quilômetros da costa marroquina. O treinamento com sistemas NASAMS e Patriot expõe a tensão latente entre Madri e Rabat e reacende o debate sobre soberania e gastos militares na Europa.

O Ministério da Defesa espanhol anunciou, em publicação oficial em suas redes sociais no dia 18 de setembro, o início de manobras de defesa aérea na região do Estreito de Gibraltar, a aproximadamente 12 milhas náuticas da costa marroquina. Os exercícios envolvem baterias de mísseis NASAMS (Norwegian Advanced Surface-to-Air Missile System) e sistemas Patriot, ambos integrados ao comando da OTAN.

Segundo o comunicado do Estado-Maior Conjunto, divulgado à imprensa espanhola, o objetivo é “testar a capacidade de resposta contra ameaças aéreas de alta velocidade em cenários de negação de acesso”. A localização exata — ao largo de Tânger — não foi detalhada, mas fontes militares confirmaram à agência EFE que os disparos simulados ocorreram dentro da zona econômica exclusiva espanhola.

O treinamento ocorre em um contexto de relações instáveis entre Espanha e Marrocos. Rabat mantém reivindicações sobre os enclaves de Ceuta e Melilla, além de contestar a soberania espanhola sobre as águas adjacentes. O governo de Pedro Sánchez, após uma crise diplomática em 2022, tem oscilado entre concessões e demonstrações de força.

Por que isso importa? Para os liberais, a defesa territorial é função primária do Estado, mas deve ser exercida com eficiência e sem desperdício de recursos públicos. O custo dos sistemas NASAMS — cada bateria gira em torno de 300 milhões de euros — levanta questões sobre prioridades orçamentárias em um país com déficit fiscal crônico. Ainda assim, a dissuasão é mais barata que a guerra.

A análise FORTIS enxerga no movimento espanhol um sinal de maturidade estratégica. Em um mundo onde potências autoritárias testam limites constantemente — Rússia na Ucrânia, China no Pacífico —, a Espanha não pode se dar ao luxo de parecer frágil. A defesa aérea integrada à OTAN é um seguro contra aventuras marroquinas, mas exige transparência nos contratos e competitividade nas aquisições.

O contraponto vem de setores políticos e analistas críticos. O deputado do Podemos, Pablo Echenique, declarou à Rádio Nacional da Espanha que os exercícios são “uma provocação desnecessária que coloca em risco a paz na região”. Já o analista marroquino Ahmed Benchemsi, em artigo no jornal Le Desk, classificou a manobra como “demonstração de força colonial” e pediu mediação internacional.

Do lado militar, o general reformado José Luis de la Torre, em entrevista à COPE, defendeu que “treinar a 12 milhas é legal e rotineiro”. Ele lembrou que Marrocos realiza manobras similares próximas às ilhas Canárias. A diferença é que Madri não reconhece as reivindicações marroquinas sobre o Saara Ocidental, o que torna cada exercício um ato político.

O governo Sánchez, por meio do Ministério das Relações Exteriores, emitiu nota afirmando que “as manobras são programadas e não visam nenhum país em particular”. Contudo, a coincidência com a visita do rei Mohammed VI a Paris — onde discutiu a compra de sistemas de defesa aéreos franceses — não passou despercebida.

Para o liberalismo clássico, a soberania nacional não é negociável, mas a escalada retórica é contraproducente. O comércio bilateral entre Espanha e Marrocos ultrapassa 15 bilhões de euros anuais. Interromper esse fluxo por orgulho mal colocado seria irracional. A melhor defesa é a prosperidade compartilhada, mas isso exige que Rabat abandone o revanchismo territorial.

Os sistemas NASAMS utilizados nos exercícios são fornecidos pela Noruega e pela Raytheon, com integração americana. A Espanha adquiriu seis baterias em 2023, dentro do programa de modernização da OTAN. Cada míssil AIM-120 AMRAAM custa cerca de 1,2 milhão de dólares. O exercício consumiu dezenas de disparos simulados, mas o custo total não foi divulgado.

A oposição conservadora, pelo Partido Popular, criticou a falta de transparência. O porta-voz de Defesa no Congresso, José Antonio Bermúdez de Castro, afirmou em nota que “o governo deveria explicar quanto gastou e por que escolheu esse local específico”. A transparência fiscal é um princípio liberal básico.

Em resumo: a Espanha faz o que qualquer nação soberana faria — treinar suas forças. O problema é que a política externa errática de Sánchez enfraquece a credibilidade do gesto. Se Madri ceder em Ceuta ou no Saara, o investimento em defesa aérea terá sido em vão. Se mantiver a linha, os exercícios são um lembrete necessário.

**1. O que são os sistemas NASAMS e por que a Espanha os utiliza?** NASAMS é um sistema de defesa aérea de médio alcance, desenvolvido pela Noruega e pela americana Raytheon. Utiliza mísseis AIM-120 AMRAAM, originalmente aerotransportados, adaptados para lançamento terrestre. A Espanha os adquiriu para substituir sistemas Hawk obsoletos e integrar a malha de defesa aérea da OTAN. O sistema é capaz de engajar aeronaves, drones e mísseis de cruzeiro a até 40 km de distância.

**2. Por que a escolha de treinar a 12 milhas da costa marroquina é controversa?** A distância de 12 milhas náuticas corresponde ao limite do mar territorial de um país. Treinar nessa faixa é legal, mas simbolicamente carregado porque Marrocos não reconhece a soberania espanhola sobre as águas ao redor de Ceuta e Melilla. Além disso, a proximidade com Tânger — cidade estratégica e portuária — é vista por Rabat como uma demonstração de força. Exercícios anteriores em 2024 já haviam gerado protestos diplomáticos.

--- *FORTIS NEWS é um portal de notícias liberal. As opiniões expressas na seção 'Análise FORTIS' refletem a linha editorial do veículo, baseada em princípios de livre mercado, responsabilidade fiscal e soberania nacional.*

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.