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Politica

Congresso Espanhol Retira Credencial Definitiva de Vito Quiles: O Fim do Jornalismo de Bordoada?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

A Mesa do Congresso espanhol cassou em definitivo o credenciamento de imprensa do ativista e comunicador Vito Quiles, um golpe direto à liberdade de expressão que expõe o establishment político-midiático.

A Mesa do Congresso dos Deputados da Espanha anunciou nesta sexta-feira a retirada definitiva da credencial de imprensa de Vito Quiles, correspondente do portal 'El Toro TV' e ativista do partido Vox. A decisão, tomada por maioria conservadora e socialista, transforma em permanente uma suspensão que já durava meses, após episódios de confronto com a deputada socialista Carlota Merchán e com a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz. A medida, que ecoa práticas de censura velada, coloca em xeque o princípio de que a imprensa livre é o cão de guarda do poder, não um animal de estimação do governo.

A história começou em março de 2025, quando Quiles foi flagrado em vídeos que viralizaram, abordando agressivamente a deputada do PSOE nos corredores do parlamento, chamando-a de "assassina" e "criminosa de guerra" por sua posição no conflito de Gaza. Em outra ocasião, chamou a vice-primeira-ministra Yolanda Díaz de "comunista de merda" diante das câmeras. A Mesa, inicialmente, suspendeu o credenciamento por um mês, mas uma comissão disciplinar recomendou a expulsão definitiva, alegando "reiterada violação das normas de convivência" e "conduta incompatível com o decoro parlamentar".

A decisão não é meramente procedimental; é uma declaração de guerra contra o jornalismo que ousa ser combativo. Vito Quiles, filho do ex-líder do Vox, Iván Espinosa de los Monteros, construiu sua carreira na trincheira digital, expondo contradições do governo de Pedro Sánchez e da esquerda midiática. Sua credencial, que lhe dava acesso pleno ao hemiciclo e áreas restritas, era o seu canivete suíço. Sem ela, o ativista fica reduzido a assistir os plenários pela tribuna pública, como qualquer cidadão, ou a depender da boa vontade de um deputado amigo para registrar o que se passa nos corredores.

Para o liberalismo, a questão central é de princípio: o Estado não deve definir quem é ou não jornalista, nem sob que circunstâncias. A credencial de imprensa, criada para facilitar o trabalho de reportagem, tornou-se uma arma de controle quando usada para punir o conteúdo da cobertura. A Mesa do Congresso, que reúne PSOE, PP e Vox em cargos de direção, agiu como um tribunal de exceção, confundindo má educação com ameaça à ordem institucional. Se a conduta de Quiles fosse criminosa, que se acionasse o Ministério Público; mas punir pela via administrativa é um atalho perigoso que fere o devido processo legal e a liberdade de expressão.

A decisão espanhola não ocorre no vácuo. Ela ecoa movimentos semelhantes em outras democracias ocidentais, como a tentativa do governo brasileiro de regulamentar a mídia e as pressões sobre jornalistas independentes na França e na Alemanha. O establishment político, de todos os espectros, descobre que a melhor forma de silenciar críticos é vesti-los de palhaços ou, pior, de ameaças à segurança. Ao retirar a credencial de Quiles, o Congresso manda um recado claro: se você não se comportar dentro das regras não escritas do clube, você está fora. E o clube, neste caso, é o monopólio da informação que decide o que é aceitável.

A defesa da liberdade de expressão não pode ser seletiva. Quem defende o direito de um humorista debochar de um político deve, por coerência, defender o direito de um ativista debochar de uma deputada, mesmo que com palavras duras. A cortesia parlamentar não pode ser uma camisa de força. Em uma economia de livre mercado de ideias, como ensinou John Stuart Mill, a verdade emerge do confronto de opiniões, não da supressão das que incomodam. Ao silenciar Quiles, o Congresso não protege a democracia; protege a si mesmo daqueles que ousam cutucar as feridas do poder.

É verdade que Vito Quiles não é um santo. Suas provocações beiram o mau gosto e sua retórica é, no mínimo, desmedida. Seus críticos argumentam que a medida é proporcional, já que a liberdade de expressão não é absoluta e que a ordem no parlamento deve ser preservada. Eles têm um ponto: ninguém é obrigado a aturar xingamentos no local de trabalho. Mas a resposta a discursos que desagradam não é a censura, e sim o debate público e a réplica. Se Quiles errou, que responda por seus atos em tribunais comuns, não em um tribunal político que usa a etiqueta como desculpa para excluir vozes divergentes.

Agora, Quiles promete recorrer à Justiça, e seus advogados já anunciaram medidas cautelares. A decisão final caberá aos tribunais, que terão que decidir se a Mesa do Congresso agiu dentro de suas atribuições ou se houve abuso de poder. Enquanto isso, o ativista continuará a operar através de seu site e perfis em redes sociais, onde tem mais de 500 mil seguidores. A pergunta que fica é: quantos jornalistas independentes serão os próximos? O precedente está aberto, e o silêncio cúmplice dos grandes veículos, que nunca esconderam o desprezo por Quiles, é o sinal mais alarmante de que a liberdade de imprensa na Espanha está sob cerco.

A Espanha de Sánchez, que se vende como bastião dos direitos civis, acaba de dar um passo rumo ao autoritarismo soft. A retirada da credencial não é uma vitória da decência, mas uma derrota da coragem. O jornalismo de bordoada, como o praticado por Quiles, pode ser desagradável, mas é o preço que se paga por uma imprensa verdadeiramente livre. Sem ele, o parlamento espanhol se torna um clube fechado, onde só entram os que já estão dentro.

Enquanto o caso não for decidido no mérito, a lição é clara: em tempos de censura institucional, a única proteção real é a independência financeira e a resiliência digital. Que os próximos capítulos da história sirvam de alerta para aqueles que acham que a liberdade é um bem garantido. Ela é uma conquista diária, e o preço da vigilância é eterno.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.