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Cultura

Cancelamento cultural em Granada: John Banville retira-se após exclusão de Ariana Harwicz

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

O prêmio Nobel de Literatura John Banville anunciou sua retirada do Festival de Poesia de Granada depois que a organização cancelou a participação da escritora argentina Ariana Harwicz. O caso expõe a crescente tensão entre liberdade de expressão e militância identitária na cena literária espanhola.

O escritor irlandês John Banville, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, anunciou nesta terça-feira (23) que não participará do Festival Internacional de Poesia de Granada, na Espanha. A decisão ocorre após a organização do evento cancelar, sem explicação pública detalhada, a participação da escritora argentina Ariana Harwicz, autora de "Matate, amor" e "El ruido de una época".

Em publicação nas redes sociais, Banville afirmou: "Não posso em sã consciência participar de um evento que cede à pressão de grupos que desejam silenciar vozes literárias dissidentes. A literatura vive do dissenso, não da unanimidade forçada." A declaração foi replicada por diversos veículos culturais europeus, e o Festival de Granada ainda não emitiu nota oficial sobre o cancelamento da participação de Harwicz nem sobre a saída de Banville.

Ariana Harwicz é conhecida por sua prosa agressiva e por posições polêmicas em entrevistas, nas quais já criticou o que chama de "politização excessiva da literatura" e manifestou desconforto com pautas identitárias no meio editorial. Embora não se identifique publicamente com a direita, Harwicz tornou-se alvo de campanhas de cancelamento por parte de setores progressistas que a acusam de "normalizar discursos reacionários". Em 2023, ela foi alvo de protestos em uma feira do livro na Argentina, onde manifestantes exigiram sua exclusão sob a acusação de "promover a violência contra mulheres" — alegação que ela nega veementemente, classificando-a como "leitura rasa de minha obra".

O caso de Granada não é isolado. Nos últimos dois anos, pelo menos seis festivais literários na Espanha e na América Latina sofreram cancelamentos ou boicotes após pressões de coletivos feministas e LGBTQIA+. O Festival de Poesia de Granada, tradicional evento que recebe financiamento público da Junta de Andaluzia e do Ministério da Cultura espanhol, viu-se no centro de um debate que opõe autonomia curatorial à censura militante.

Por que isso importa? A exclusão de Harwicz e a retirada de Banville expõem uma fragilidade estrutural no ecossistema cultural ibérico: a dependência de recursos estatais torna os festivais vulneráveis a pressões políticas e a grupos organizados que exigem "filtragem prévia" de participantes com base em critérios ideológicos. Se um evento público não pode convidar um escritor sem temer represálias de militância, a liberdade artística deixa de existir de fato.

Análise FORTIS: Do ponto de vista liberal-conservador, o caso ilustra o paradoxo da "gestão cultural progressista". A mesma esquerda que defende a pluralidade de vozes em discursos teóricos é a primeira a exigir o silenciamento de autores que escapam do alinhamento identitário. O Estado, ao financiar a cultura, cria um monopólio moralizante: apenas artistas que se enquadram na pauta oficial recebem palco e dinheiro público. Harwicz não é uma escritora de direita, mas sua recusa em aderir à liturgia do vitimismo a transformou em alvo. Banville, por sua vez, fez o que qualquer intelectual honesto deveria fazer: recusou-se a ser cúmplice de um cancelamento.

Contraponto: Defensores do cancelamento de Harwicz argumentam que festivais têm o direito de escolher seus participantes e que a liberdade de expressão não inclui o direito a um palco financiado com dinheiro público. A crítica é legítima, porém insuficiente. Se um festival público exclui autores por pressão política, ele deixa de ser um espaço de debate cultural para se tornar uma ferramenta de censura. Não há liberdade de expressão que sobreviva quando o dinheiro do contribuinte é usado para silenciar vozes incômodas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.