A busca por uma fotografia 'dramática' quase custou caro a um grupo de turistas na costa dos Estados Unidos, que ignoraram alertas e ficaram presos pela maré em uma praia isolada. O incidente, ocorrido na última quinta-feira, é o mais recente exemplo de uma tendência preocupante em que a vaidade digital se sobrepõe à mais elementar noção de autopreservação. Enquanto as imagens de tirar o fôlego se espalham pelas redes sociais, a realidade é que cada clique irresponsável tem um preço, muitas vezes pago por quem não tem nada a ver com a história.
O grupo, que não teve os nomes divulgados, foi resgatado por equipes da Guarda Costeira após o avanço rápido da maré os encurralar contra penhascos. Em declaração à imprensa local, o capitão da unidade de resgate confirmou que os turistas estavam 'totalmente alheios' aos avisos sobre a tabela de marés, que indicava risco elevado para aquele horário. Não é preciso ser especialista em oceanografia para entender que o mar não negocia com a imprudência.
A cena se repetiu em praias da Califórnia ao Maine, onde autoridades locais já catalogaram dezenas de ocorrências semelhantes apenas neste ano. O que motiva um adulto a ignorar placas de advertência, barreiras de segurança e alertas de bombeiros? A resposta, cada vez mais, está ligada à economia da atenção, onde o valor de uma imagem capaz de gerar curtidas supera qualquer cálculo racional de risco.
Para o contribuinte americano, o custo é duplo: além de financiar operações de resgate que consomem horas de trabalho e combustível de embarcações e helicópteros, ainda arca com o impacto indireto no turismo. Praias que antes eram refúgio de famílias e aventureiros conscientes agora veem seu acesso restrito por medidas de segurança emergenciais, afugentando justamente o turista que gera renda e emprego.
A lógica liberal, que defendemos aqui, não é a do Estado babá, que multa e monitora cada passo do cidadão. É a da responsabilidade individual: quem assume o risco deve arcar com as consequências. Se o turista quer se arriscar por uma foto, que o faça com seus próprios recursos, contratando seguradoras ou assinando termos de responsabilidade, em vez de transferir o ônus para a coletividade. Em um país que se orgulha da liberdade, a imprudência não pode ser subsidiada.
Há quem argumente, com razão, que a falta de fiscalização e a má sinalização em trechos isolados contribuem para o problema. O poder público não pode estar em todos os lugares, mas pode — e deve — investir em infraestrutura de prevenção inteligente, como sensores de maré e aplicativos de alerta em tempo real, sem transformar praias em prisões a céu aberto. A solução não é proibir, mas informar e, quando necessário, cobrar pelos custos.
Enquanto isso, os turistas resgatados desta vez devem responder por danos ao patrimônio público, já que a operação de emergência envolveu equipamentos de alto valor. As autoridades avaliam a aplicação de multas e a cobrança pelos custos operacionais, uma prática que já é adotada em parques nacionais como o Yellowstone e que deveria ser estendida a todas as áreas de risco. A mensagem é clara: a liberdade de ser irresponsável termina onde começa o bolso do próximo.
A indústria do turismo, que vive do encanto e da aventura, precisa repensar sua abordagem. Em vez de estimular a caça ao clique perfeito, as agências e influenciadores deveriam promover o turismo responsável, com dicas de segurança e respeito ao meio ambiente. Afinal, uma praia preservada e segura vale mais do que qualquer fotografia — e o turista que entende isso é o único que merece ser chamado de esperto.
O caso de hoje, assim como tantos outros, deveria servir de alerta para que a próxima 'foto dramática' seja tirada com os pés fincados na areia, longe da arrebentação. A natureza não faz exceções, e a maré, essa sim, não perdoa ninguém.
Por Renan Filho · 2026-09-21