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Economia

Se Trump quer baratear remédios, os parasitas que ele busca estão lá fora

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

A guerra de preços de medicamentos não se resolve com controle interno, mas com o desmonte do sistema de subsídios cruzados que financia a inovação global. Os alvos óbvios do presidente americano estão fora das fronteiras dos EUA.

O discurso de Donald Trump sobre reduzir preços de medicamentos sempre esbarra em um paradoxo: os EUA pagam a conta da pesquisa mundial, enquanto países como Canadá, Alemanha e Japão praticam controles de preços que os transformam em caronas do sistema. Se o republicano quer atacar o problema de frente, precisa apontar o dedo para fora, não para dentro.

A lógica é simples e brutal. O mercado farmacêutico americano é o único do planeta que não impõe teto de preços, o que gera receita suficiente para financiar o desenvolvimento de novos fármacos. Os demais países, por meio de agências governamentais de compra, negociam valores abaixo do custo marginal, aproveitando-se do esforço alheio sem pagar a conta.

Dados do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) indicam que os EUA respondem por cerca de 44% da receita global de medicamentos, embora representem menos de 5% da população mundial. Ou seja, cada comprimido vendido em território americano carrega um subsídio implícito para o resto do planeta.

Por que isso importa agora? Porque a proposta de Trump de vincular preços internos a padrões internacionais — como o plano do governo Biden de usar o preço do Medicare como referência — apenas institucionaliza a parasitagem. Em vez de forçar estrangeiros a pagarem mais, o republicano estaria aceitando que os americanos paguem menos, sem que ninguém cubra o buraco.

A consequência é previsível: queda na receita das farmacêuticas, cortes em P&D e menos inovação. Estudos da Tufts University mostram que o custo médio de levar um medicamento ao mercado gira em torno de US$ 2,6 bilhões. Sem retorno adequado, o próximo tratamento para Alzheimer ou câncer pode simplesmente não existir.

A análise FORTIS é direta: Trump deveria usar a ameaça de tarifas como alavanca. O mesmo instrumento que aplicou na guerra comercial com a China pode ser usado para forçar países a pagarem preços de mercado ou a aceitarem que seus laboratórios estatais contribuam com a pesquisa. A Organização Mundial do Comércio (OMC) permite retaliações quando há discriminação de fato.

O governo americano já tem um precedente: em 2019, o acordo USMCA forçou o Canadá a abrir seu mercado de laticínios, algo impensável antes. Se há vontade política, o mesmo pode ser feito com medicamentos. A contrapartida é que setores protecionistas americanos, como o de genéricos, podem se beneficiar da confusão, mas isso é assunto para outra discussão.

Não se trata de defender o lucro das big pharma, mas de reconhecer que o sistema atual é insustentável. Os EUA não podem ser o único jogador a pagar a conta. Trump, que se vangloria de ser um negociador duro, precisa aplicar a mesma lógica ao setor farmacêutico internacional.

A janela de oportunidade é real. Com a pressão sobre o custo de vida nos EUA, o presidente tem capital político para renegociar acordos bilaterais, como fez com o Japão e a Coreia do Sul em outros setores. Se não fizer isso, estará apenas patinando no gelo enquanto o resto do mundo ri às suas custas.

O problema não é a indústria, é a estrutura. Enquanto não houver reciprocidade, os americanos continuarão sendo otários no jogo global. A pergunta que fica é: Trump terá coragem de mirar os aliados, ou vai continuar fingindo que o vilão está em Washington?

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.