O rush das fraternidades femininas sempre foi um ritual cruel de aparências. Mas este ano, a temporada de seleção ganhou um novo personagem: o Ozempic. Relatos de universitárias utilizando o medicamento originalmente indicado para diabetes tipo 2 como atalho para uma silhueta perfeita estão se multiplicando em fóruns online e grupos fechados do TikTok. Segundo postagens em redes sociais verificadas por veículos como o The Wall Street Journal, jovens estão compartilhando dicas sobre como obter receitas médicas sem indicação real, muitas vezes recorrendo a teleconsultas com clínicas estéticas que vendem a droga como “rejuvenescimento metabólico”.
A lógica é simples e brutal: em um ambiente onde a primeira impressão é decisiva e as fotos de perfil são analisadas por pares, o corpo magro se tornou um requisito não escrito de elegibilidade. Diferentemente das dietas tradicionais ou do exercício físico, o Ozempic promete resultados rápidos e com mínimo esforço – uma proposta irresistível para uma geração que cresceu sob a mentalidade do “eu mereço o melhor agora”. Não se trata de saúde, mas de competição estética em um mercado de relacionamentos sociais onde a oferta de candidatas supera a demanda de vagas nas melhores casas.
Por que isso importa? Porque a popularização do Ozempic entre jovens sem condições médicas preexistentes expõe a falácia do discurso dominante sobre aceitação corporal. Durante anos, campanhas de “body positivity” nas universidades americanas pregaram que todos os corpos são belos. No entanto, a realidade do rush mostra que o mercado de status social não se curva a slogans. As jovens entendem que a magreza continua sendo um capital social valioso – e estão dispostas a pagar caro por ele, literalmente. O custo mensal do Ozempic pode chegar a US$ 1.200 sem seguro, e muitas compartilham seringas ou compram versões falsificadas na dark web, conforme relatos de usuários em comunidades do Reddit.
A análise FORTIS aqui é clara: o fenômeno não é um desvio moral, mas uma consequência natural da liberdade individual em um ambiente de livre mercado de aparências. Cada jovem que opta pelo uso off-label do Ozempic está fazendo uma escolha racional dentro das restrições que lhe são impostas. O Estado não tem o direito de proibir o acesso a medicamentos que não causam danos comprovados a terceiros – desde que haja informação adequada sobre riscos. O verdadeiro problema não é a droga, mas a hipocrisia de um sistema que prega inclusão enquanto recompensa a conformidade estética. A pressão do rush é um termômetro da sociedade: se você quer mudar o comportamento feminino, não comece pela criminalização do Ozempic, mas pelo fim do próprio sistema de fraternidades – algo que ninguém ousa defender.
Contraponto: críticos apontam que o uso indiscriminado de Ozempic entre jovens saudáveis pode causar efeitos colaterais graves, como pancreatite, gastroparesia e distúrbios alimentares. A FDA já emitiu alertas sobre a venda de versões falsificadas. Além disso, há a questão ética do “desvio de finalidade” – retirar estoques de pacientes diabéticos que realmente precisam do medicamento. A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, declarou em nota oficial que “o medicamento é indicado para diabetes tipo 2 e deve ser usado sob supervisão médica para fins aprovados”. Organizações de saúde pública, como a American Medical Association, recomendam que médicos não prescrevam GLP-1 apenas para perda de peso cosmética. No entanto, a demanda persiste – e o livre mercado responde com ofertas paralelas, como clínicas especializadas em “wellness” que vendem semaglutida por assinatura.
O cenário é um microcosmo do embate entre a autonomia individual e o paternalismo estatal. As universitárias estão exercendo seu direito de escolha – mesmo que essa escolha seja influenciada por um padrão de beleza irracional. A questão real é: por que a sociedade aceita que mulheres se submetam a procedimentos invasivos para se encaixar, mas se escandaliza quando elas usam um medicamento que age no metabolismo? A hipocrisia é o verdadeiro pecado.
Por Renan Filho · 2026-09-20