Ernie Accorsi morreu neste sábado, aos 84 anos. O New York Giants confirmou a notícia em nota oficial, e ex-jogadores, dirigentes e a própria NFL prestaram homenagens nas redes sociais. O nome de Accorsi não tem a estrela dos quarterbacks que ajudou a lançar, mas poucos executivos foram tão decisivos na história do futebol americano.
Ele era um homem de bastidor — e exatamente por isso entendeu que o jogo também se vence na mesa de negociação.
CONTEXTO
Accorsi construiu a carreira nos bastidores. Passou pelos Colts em Baltimore, dirigiu os Browns em Cleveland e assumiu o New York Giants em 1998. Quando chegou a Nova York, encontrou uma franquia tradicional, porém sem um quarterback para a próxima década.
A resposta apareceu no draft de 2004: Eli Manning, filho de Archie e irmão de Peyton, era o nome mais valioso daquela classe. Havia, porém, uma pedra no caminho. Eli deixou claro, pela voz da própria família, que não jogaria em San Diego, dona da primeira escolha.
Para o establishment, aquilo era rebeldia. Para Accorsi, era informação de mercado.
Na noite de 24 de abril de 2004, os Chargers escolheram Eli em primeiro lugar, enquanto os Giants selecionaram Philip Rivers na quarta posição. Imediatamente, os times oficializaram a troca: Rivers, uma escolha de terceira rodada em 2004 e escolhas de primeira e quinta rodada em 2005 foram para San Diego. Nova York recebeu Eli Manning.
Executivos conservadores chamaram o negócio de loucura. Accorsi, porém, sabia que quarterback é o ativo mais valioso do esporte e que Eli tinha estatura, sobrenome e braço para ser o rosto da franquia por quinze anos.
POR QUE IMPORTA
A troca de 2004 mudou o eixo da NFL. Eli Manning venceu o Super Bowl duas vezes contra o New England Patriots de Tom Brady — a primeira em fevereiro de 2008, a segunda em fevereiro de 2012. Nas duas ocasiões, foi eleito o MVP do jogo.
Philip Rivers, o principal ativo entregue aos Chargers, construiu uma carreira sólida e longa, mas nunca chegou a um Super Bowl. Mais do que os troféus, porém, o episódio marcou a quebra de um tabu: um jogador recusou o destino imposto pelo draft e, ainda assim, saiu vencedor. A partir dali, a NFL precisou lidar com a realidade de que atleta é agente, não propriedade.
ANÁLISE FORTIS
A história de Accorsi é um capítulo de economia aplicada. A NFL é um dos arranjos mais coercitivos do capitalismo americano: o draft diz onde o jovem vai trabalhar, o teto salarial controla o preço do trabalho e as regras de agência livre limitam a liberdade de escolha. No meio desse sistema fechado, Accorsi encontrou uma brecha que os burocratas do futebol não enxergavam: a preferência revelada.
Em vez de lutar contra a vontade de Eli, ele a usou como moeda de troca. Respeitar a liberdade individual não foi um gesto romântico, foi lucrativo. Os Chargers receberam compensações valiosas, os Giants ganharam um campeão, e Eli foi para onde queria.
A troca voluntária gerou valor para todos os lados — exatamente como manda a lógica de mercado.
CONTRAPONTO
É justo registrar o outro lado. Os críticos apontam que Accorsi pagou um preço altíssimo e que Rivers teve números superiores aos de Eli em várias temporadas regulares. Argumentam também que a aposta só deu certo porque Tom Coughlin e uma defesa histórica salvaram os Giants nos minutos finais do Super Bowl XLII.
Se a recepção de David Tyree no capacete não tivesse acontecido, a troca seria lembrada como um erro de gestão. O contraponto é saudável.
Mercado não é sinônimo de infalibilidade; é processo de descoberta. Accorsi assumiu risco, calculou probabilidades e aceitou que o resultado final não estava totalmente sob seu controle.
Isso não diminui o mérito. Só mostra que liberdade exige coragem e que ninguém acerta o tempo todo.
O legado de Accorsi é maior do que uma troca. Ele ajudou a provar que, mesmo num ambiente desenhado para concentrar poder nas franquias, a vontade individual pode prevalecer. Os Giants que ele ajudou a montar venceram o Super Bowl pouco depois de sua aposentadoria, em 2008, e voltaram a vencer em 2012.
Em ambas as conquistas, o quarterback era o homem que Accorsi insistiu em buscar no dia do draft. Aos 84 anos, Ernie Accorsi deixa uma obra rara em um esporte dominado por burocratas: a de um executivo que tratou atleta como gente.
Por Renan Filho · 2026-09-20