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A História está com os Democratas — mas eles insistem em jogar contra o placar

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

Dados históricos dão ao partido governista uma vantagem de 8 pontos nas midterms. Mas a estratégia atual de Kamala Harris e companhia parece desenhada para desperdiçá-la.

A história eleitoral dos Estados Unidos é implacável e estatisticamente clara: desde a Segunda Guerra Mundial, o partido do presidente perdeu, em média, 28 cadeiras na Câmara e 4 no Senado nas eleições de meio de mandato. A exceção de 2002, com a aprovação pós-11 de setembro, é o único caso de ganho. Em 2026, os Democratas deveriam estar nadando de braçada: desemprego em 3,7%, inflação recuando para 2,9%, e a Suprema Corte com aprovação em queda livre após os escândalos de ética de Clarence Thomas. A matemática básica sugere uma onda azul. Mas a matemática não é a única ciência em jogo — e os estrategistas democratas parecem ter perdido o manual de leitura básica.

A vantagem histórica, porém, vem acompanhada de uma armadilha: o excesso de confiança. Em 2010, Barack Obama perdeu 63 cadeiras na Câmara e 6 no Senado, não porque os americanos amassem o Tea Party, mas porque a base progressista ficou em casa, achando que a vitória estava garantida. Em 2016, Hillary Clinton repetiu o erro de achar que o Colégio Eleitoral era um detalhe. Agora, o Partido Democrata repete o padrão: em vez de focar em economia e segurança, seus principais nomes gastam capital político com pautas identitárias e o impeachment de juízes da Suprema Corte.

Por que isso importa? Porque o eleitor mediano das eleições de meio de mandato é mais velho, mais branco e mais conservador do que o do ano presidencial. Em 2022, os Democratas perderam a Câmara justamente por não terem conseguido traduzir a raiva com Roe v. Wade em votos em distritos-chave. Em 2026, a situação é ainda mais delicada: a Suprema Corte acaba de decidir que estados podem proibir a transição de gênero para menores, e a base democrata está em chamas pedindo vingança. Mas a vingança não é uma plataforma — é um grito de guerra para a base, não uma proposta para o eleitor de Ohio ou Pensilvânia.

A análise FORTIS, ancorada em dados de mercado e comportamento eleitoral, aponta para um erro estratégico colossal. O Partido Democrata está tratando as midterms como um referendo sobre Donald Trump, quando deveria estar tratando como um plebiscito sobre Kamala Harris. A vice-presidente tem aprovação de 39% no agregador do FiveThirtyEight — pior do que a de Joe Biden no mesmo período, e com a economia crescendo a 2,4% no segundo trimestre. Os americanos não estão com medo de uma ditadura trumpista; estão com medo de pagar US$ 4,20 o galão de gasolina e de ver suas cidades virarem praças de guerra. Os democratas, surdos ao clamor popular, insistem em falar de democracia ameaçada enquanto as pesquisas mostram que 62% dos eleitores consideram a imigração o tema mais importante — e 54% apoiam o muro na fronteira.

O contraponto, claro, é a própria história que os favorece. O precedente de 1998, quando Bill Clinton ganhou cadeiras no meio do mandato apesar do impeachment, prova que a resiliência econômica pode superar o escândalo. O desemprego de 3,7% é o menor em 50 anos para negros e hispânicos, e a Lei de Redução da Inflação, ainda que imperfeita, começa a gerar empregos de manufatura no Cinturão da Ferrugem. Se os democratas conseguirem mudar a chave para as próximas semanas, falando de bolso e de segurança — e não de Trump —, a maré histórica pode ser suficiente para manter o Senado e limitar as perdas na Câmara. Mas o tempo está acabando, e o discurso atual, com o anúncio de novas investigações sobre a Suprema Corte, soa como um tiro no pé.

A conclusão é desconfortável para a esquerda: a história está do lado deles, mas a estratégia está contra. As pesquisas internas do partido, vazadas em publicação no site Politico, mostram que a base entusiasta quer pautas de justiça racial, enquanto os independentes querem economia. Os democratas, em vez de escolherem o eleitor decisivo, preferem agradar a ala mais barulhenta. É um erro que pode custar caro não apenas em 2026, mas na própria viabilidade da coalizão em 2028. O livre mercado eleitoral, assim como o de ações, pune quem ignora os fundamentos.

A história oferece a vantagem, mas não o troféu. Ela apenas coloca o time em campo; o jogo ainda precisa ser jogado. E os democratas, com o relógio andando, parecem mais interessados em discutir o tamanho do campo do que em marcar gols. Se a onda azul se transformar em tsunami, será apesar da estratégia — não por causa dela. Se virar uma maré vermelha, o partido terá apenas a si mesmo para culpar. E o eleitor, que não é bobo, estará de olho — e, em novembro, dará o veredito.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.