O final da terceira temporada de “Lioness” finalmente respondeu à pergunta que mantinha os espectadores em suspense: quem mandou sequestrar a agente Joe (Zoe Saldaña) no meio da operação no Afeganistão? A revelação, conforme divulgado pela Paramount+ em comunicado oficial no último domingo, aponta para o subsecretário de Defesa para Assuntos de Inteligência, um personagem até então coadjuvante chamado David Crane.
Crane, segundo o roteiro, manipulou a cadeia de comando para usar o sequestro como pretexto para expandir o programa Lioness – uma força-tarefa extrajudicial que opera sem supervisão do Congresso. Em declaração à imprensa, o showrunner Taylor Sheridan afirmou que a trama “explora a tentação do poder quando não há olhos externos”. A declaração, no entanto, não esconde o viés estatista que permeia a série.
A revelação não surpreende quem acompanha a série com olhos críticos. Desde a primeira temporada, “Lioness” apresenta o Estado como um ente capaz de se autorregular, bastando que os “homens certos” estejam no comando. O final da terceira temporada, ao colocar a culpa em um único burocrata corrupto, reforça essa narrativa perigosa: o problema não seria o sistema, mas uma maçã podre.
Por que isso importa? Porque a ficção reflete o debate real sobre os poderes de vigilância e ação encoberta do governo americano. Em 2023, o Escritório de Orçamento do Congresso estimou que os gastos com inteligência ultrapassam US$ 80 bilhões anuais – valor que o contribuinte financia sem saber exatamente como é aplicado. A série, ao mostrar um programa secreto que sequestra cidadãos americanos (a própria Joe é cidadã), levanta a bandeira vermelha que liberais vêm agitando há décadas.
Análise FORTIS: O erro fundamental de “Lioness” é tratar o Estado como um mal necessário que pode ser domado por boas intenções. A história real mostra o oposto: quanto mais poder e menos transparência, maior a probabilidade de abuso. O sequestro de Joe não foi um desvio – foi a consequência lógica de um sistema que permite que agentes do governo ajam sem prestar contas. A solução apresentada pela série – a heroína que derruba o vilão burocrata – é um placebo narrativo.
Contraponto: Defensores da série argumentam que “Lioness” é, na verdade, uma crítica ao establishment de inteligência. Em entrevista à revista Variety, o ator Morgan Freeman, que interpreta o chefe da CIA, disse que a temporada “mostra como o poder corrompe até mesmo aqueles que juram proteger”. Há mérito no argumento: a série expõe a falta de freios e contrapesos. Mas falta o passo seguinte: a defesa de mecanismos concretos de controle, como a auditoria pública do orçamento de inteligência e a proibição de operações que violem a Quarta Emenda.
O que a série não mostra – e deveria – é que o cidadão comum pode, sim, influenciar essas decisões. Não através de votos em candidatos que prometem “vigiar os vigias”, mas por meio da redução do tamanho do Estado. Enquanto o governo federal tiver acesso a bilhões de dólares não auditados, haverá sempre um David Crane disposto a sequestrar uma agente para justificar seu próprio orçamento.
No fim, o final de “Lioness” é um entretenimento competente, mas um péssimo guia político. A verdadeira lição liberal – que o poder concentrado é inerentemente perigoso – fica submersa em explosões e reviravoltas. Cabe ao espectador atento enxergar além da tela.
Por Renan Filho · 2026-09-21