O futuro da inteligência artificial está sendo decidido não em laboratórios de algoritmos, mas em fábricas de silício. A guerra tecnológica entre Estados Unidos e China migrou definitivamente para o terreno dos semicondutores — os chips que alimentam desde data centers até armas autônomas. E, neste momento, a balança pende para quem controlar a produção de circuitos avançados.
Desde outubro de 2022, o governo Biden impôs sucessivas rodadas de sanções que restringem a venda de chips de IA e equipamentos de fabricação para a China. Conforme nota oficial do Departamento de Comércio, as medidas visam “impedir que Pequim utilize tecnologia americana para modernizar seu setor militar”. Em julho de 2024, novas regras bloquearam o acesso chinês a chips como o H100 da Nvidia e a máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) da ASML.
O raciocínio é claro: sem chips de ponta, a China não consegue treinar modelos de IA competitivos. Mas a estratégia tem um calcanhar de Aquiles. Pequim não está parada. Em discurso no Congresso Nacional do Povo, Xi Jinping afirmou que “a autossuficiência tecnológica é uma questão de sobrevivência nacional”. Desde então, a China investiu mais de US$ 50 bilhões em sua indústria de chips, segundo relatório do Semiconductor Industry Association.
Por que isso importa? Porque a liderança em IA não é apenas uma questão de prestígio — é a base da próxima revolução industrial. Quem dominar a inteligência artificial controlará a automação, a cibersegurança, a medicina personalizada e a guerra cibernética. E os chips são o gargalo absoluto. Sem acesso a semicondutores de última geração, nenhum país conseguirá escalar modelos como GPT-5 ou os sucessores do chinês DeepSeek.
A análise FORTIS é direta: a abordagem atual de Washington é correta no diagnóstico, mas perigosa na execução. Sanções são necessárias para frear o avanço militar chinês, mas não podem ser o único instrumento. O livre mercado, quando distorcido por subsídios estatais chineses, exige uma resposta pragmática. A Lei CHIPS, sancionada em 2022, destinou US$ 52 bilhões para fabricação doméstica — mas a burocracia e os entraves ambientais atrasaram a construção de novas fábricas. Enquanto isso, a China construiu 20 novas instalações de chips maduros desde 2023, segundo dados da consultoria TrendForce.
O contraponto vem de vozes dentro do próprio setor. Em publicação nas redes sociais, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, alertou que “sanções excessivas podem acelerar o desenvolvimento de tecnologias alternativas na China”. De fato, a Huawei já lançou o processador Ascend 910B, fabricado com litografia chinesa, que rivaliza com chips americanos de geração passada. O risco é que, ao sufocar o acesso imediato, Washington empurre Pequim a inovar mais rápido — como fez com a indústria aeroespacial após o embargo dos anos 1990.
Outro ponto crítico é a dependência de Taiwan. Mais de 90% dos chips mais avançados do mundo são fabricados pela TSMC, localizada em uma ilha que a China reivindica. Em entrevista à CNN, o ex-secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, afirmou que “a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos de semicondutores é o maior risco estratégico americano”. Sem diversificação, qualquer crise no Estreito de Taiwan paralisaria a produção global de IA.
A fragmentação interna do ecossistema americano também pesa. Divergências entre Sam Altman (OpenAI), que busca lucro, e Ilya Sutskever, que defende limites éticos, levaram à saída dos irmãos Amodei, que fundaram a Anthropic. Essa cisão mostra que, mesmo nos EUA, não há consenso sobre o rumo da IA. Enquanto isso, a China opera com coordenação centralizada — o que, em um jogo de velocidade, pode ser uma vantagem.
Para o leitor americano, a mensagem é clara: a guerra dos chips não é um problema distante. Ela define se os EUA continuarão a ditar as regras da economia digital ou se dividirão o tabuleiro com um regime autoritário. A resposta não está apenas em sanções, mas em desregulamentação, incentivos fiscais e construção acelerada de fábticas. O livre mercado precisa de liberdade — e de um Estado que não atrapalhe.
Por Renan Filho · 2026-09-20