A família de uma idosa de 83 anos, residente em Ontário, Canadá, soou o alarme após a matriarca ter sido aceita no programa de Morte Assistida do Canadá (MAID, na sigla em inglês), mesmo sem sofrer de doença terminal. Em publicação nas redes sociais, os netos relataram que a avó, que enfrentava solidão e dores crônicas não fatais, foi considerada elegível para o procedimento, que ocorreu em setembro passado. O caso, revelado em relatório divulgado nesta semana, expõe as bordas escorregadias de uma política que, criada para aliviar o sofrimento extremo, passou a abraçar a vulnerabilidade como critério de morte.
A mulher, cujo nome foi omitido por razões legais, não tinha câncer, insuficiência cardíaca ou qualquer condição que a colocasse em risco imediato de vida. Seus familiares, em entrevista à imprensa canadense, afirmaram que ela buscava alívio para a solidão após a morte do marido, há cinco anos, e para dores articulares que limitavam sua mobilidade. O comitê de avaliação do MAID, composto por dois médicos independentes, concluiu que o sofrimento da idosa era 'insuportável' — um critério que, na prática, tem sido interpretado de forma cada vez mais ampla. Segundo o último relatório anual do governo canadense, mais de 15.000 mortes assistidas foram registradas em 2024, um aumento de 35% em relação ao ano anterior, com cerca de 4% dos casos envolvendo pessoas sem doença terminal.
O caso ganhou repercussão nos Estados Unidos, onde o debate sobre morte assistida se intensifica estado a estado. Enquanto 10 estados americanos legalizaram o suicídio medicamente assistido para doentes terminais, a realidade canadense oferece um contraste perturbador: no Canadá, a elegibilidade se expandiu para incluir sofrimento psíquico e condições não fatais, com previsão de incluir pacientes com doenças mentais a partir de 2027. Para críticos, o programa canadense se tornou um experimento de engenharia social, onde a falta de investimento em cuidados paliativos e saúde mental empurra os vulneráveis para a morte como solução padrão.
Por que isso importa para o leitor americano? A resposta é direta: o Canadá não é uma ilha isolada, e sua política de morte assistida serve de modelo para ativistas nos EUA que defendem a expansão do acesso. Grupos como a Death with Dignity têm citado o Canadá como exemplo de 'compaixão' e 'autonomia', mas omitem os efeitos colaterais: casos de pessoas que buscaram o MAID por falta de moradia acessível, por medo de se tornarem um fardo familiar ou, como no caso de Ontário, por ausência de redes de apoio comunitário. A história da avó de 83 anos não é um caso isolado, mas um sintoma de uma cultura que precarizou o cuidado com os idosos e, em seguida, os convenceu de que a morte é a saída mais racional.
A análise FORTIS enxerga aqui uma questão de liberdade individual, mas não da forma como os defensores do MAID gostariam. Liberdade de verdade é ter alternativas: acesso a cuidados paliativos de qualidade, a uma renda digna na aposentadoria, a uma comunidade que não abandona seus velhos. O que o Canadá fez foi transformar a morte em um serviço público, sem criar as condições para que a vida fosse uma escolha viável. Em vez de ampliar a autonomia, o programa criou uma pressão silenciosa sobre os mais frágeis — especialmente os solitários e os pobres — para que 'escolham' sair de cena. É um darwinismo social disfarçado de política progressista, e os EUA deveriam prestar atenção antes de importar esse modelo.
Contudo, é preciso ouvir o outro lado. Defensores do MAID argumentam que cada caso é avaliado individualmente e que o sofrimento é subjetivo; para eles, negar o procedimento a alguém que clama por alívio seria uma forma de crueldade paternalista. O ministro da Saúde canadense, em declaração à imprensa, defendeu o sistema, afirmando que 'garantimos que as salvaguardas existem e que o consentimento é livre e esclarecido'. Mas a família da idosa contesta: ela foi abordada por um médico que sugeriu o MAID durante uma consulta de rotina, sem que houvesse qualquer pedido prévio. Se isso for verdade — e o relatório do ombudsman de Ontário, que investiga o caso, deve confirmar nos próximos meses —, a 'escolha' da idosa foi condicionada por uma estrutura que a apresentou como única opção plausível.
O que está em jogo não é apenas a política de saúde, mas a mensagem que enviamos sobre o valor das vidas que já não produzem no mercado de trabalho. Numa sociedade que venera a eficiência, os idosos são vistos como custo, não como capital. O caso canadense expõe a lógica perversa do utilitarismo: se a vida perdeu 'qualidade' por critérios subjetivos, ela perde o direito de ser vivida. Para os americanos, o recado é claro: antes de expandir qualquer programa de morte assistida, é preciso garantir que ninguém escolha morrer por falta de opções melhores. Caso contrário, estaremos apenas institucionalizando o abandono.
A FORTIS NEWS continuará monitorando o desenrolar das investigações e os desdobramentos legislativos nos EUA, onde pelo menos 12 estados debatem projetos de lei sobre o tema. A pergunta que fica é: vamos repetir os erros do Canadá ou aprender com eles? A resposta dependerá da coragem dos legisladores em priorizar a vida — todas as vidas — sobre a conveniência administrativa.
Por Renan Filho · 2026-09-21