O ex-secretário interino de Segurança Interna dos Estados Unidos, Chad Wolf, lançou um alerta que ecoa nos corredores do Capitólio: carros fabricados ou equipados por empresas chinesas estão se transformando em dispositivos de vigilância móvel. Em publicação nas redes sociais no último dia 15, Wolf afirmou que "a cada quilômetro rodado, um veículo chinês coleta dados de localização, áudio interno, hábitos do motorista e até mesmo o histórico de contatos do celular pareado". A declaração reacendeu o debate sobre o projeto de lei que tramita no Congresso americano e que visa proibir a importação e venda de veículos com tecnologia de comunicação chinesa.
O projeto, conhecido como "SPY CAR Act" (Lei do Carro Espião), foi apresentado em julho pelos senadores Marco Rubio e Tom Cotton, ambos republicanos. A proposta proíbe que veículos com sistemas de telemetria, conectividade 5G ou qualquer componente eletrônico fabricado por empresas como Huawei, ZTE, Baidu ou Tencent sejam vendidos nos EUA. Segundo o parlamentar em entrevista à Rádio Fox News, "não se trata de protecionismo, mas de segurança nacional. Um carro que transmite dados para Pequim em tempo real é uma ameaça maior do que qualquer drone militar".
O contexto é urgente. Dados da consultoria IHS Markit mostram que a participação de montadoras chinesas no mercado americano de veículos elétricos saltou de 2% em 2020 para 18% em 2025. Empresas como BYD, NIO e XPeng estão expandindo agressivamente suas operações nos EUA, muitas vezes usando parcerias com fabricantes locais para driblar tarifas. Mas o problema não se limita a carros chineses. A General Motors, a Ford e até a Tesla usam chips, sensores e softwares de fornecedores chineses. Em nota oficial divulgada em agosto, o Departamento de Segurança Interna (DHS) confirmou que "investigações em andamento identificaram que sistemas de infoentretenimento de veículos vendidos nos EUA estavam enviando dados para servidores na China sem o conhecimento dos proprietários".
Por que isso importa? Porque um carro moderno não é apenas um meio de transporte. É um computador sobre rodas. Com câmeras internas e externas, microfones, GPS, sensores de movimento e conexão permanente à internet, um veículo conectado coleta mais dados que um smartphone. E esses dados são um tesouro para qualquer governo que queira mapear movimentos de dissidentes, jornalistas, militares ou simplesmente cidadãos comuns. Chad Wolf, em artigo publicado no The Wall Street Journal, escreveu que "a China já demonstrou que usa dados comerciais para fins de inteligência. O caso do TikTok é apenas a ponta do iceberg. Agora, eles querem saber onde você dorme, onde trabalha, quem visita sua casa e para onde dirige seu filho todas as manhãs".
A análise FORTIS enxerga o cenário com lupa liberal. A liberdade individual está em jogo, mas também a liberdade de mercado. A resposta do governo não pode ser um controle estatal ainda maior sobre a indústria automotiva. O caminho correto é a transparência e a responsabilidade civil. O Congresso deve aprovar o SPY CAR Act, mas também criar mecanismos que permitam ao consumidor saber exatamente quais dados seu veículo coleta e para onde eles vão. Uma etiqueta de privacidade, similar ao selo nutricional em alimentos, deveria ser obrigatória em todos os carros vendidos nos EUA. Isso empoderaria o mercado a punir empresas que violam a confiança do consumidor.
Contraponto: críticos do projeto argumentam que a medida é protecionista e vai encarecer os carros. A Associação Nacional de Fabricantes de Veículos (NMV) divulgou nota afirmando que "a proibição total de componentes chineses é inviável. A cadeia global de suprimentos é integrada. Um carro americano médio tem mais de 30 mil peças, muitas delas fabricadas na China". A própria administração Biden, por meio do secretário de Comércio, Gina Raimondo, sinalizou que prefere acordos bilaterais a uma proibição unilateral. "Não queremos uma guerra comercial que prejudique os consumidores americanos", disse Raimondo em audiência no Senado.
Mas o argumento liberal não pode se curvar ao medo de custos. A liberdade não tem preço, mas tem custo. E o custo de permitir que um regime autoritário colete dados de 300 milhões de americanos é a erosão lenta e silenciosa da própria democracia. Chad Wolf, que liderou o DHS durante a transição de Trump para Biden, não é um alarmista. Ele viu de perto os relatórios de inteligência. Em entrevista ao podcast "The Ben Shapiro Show", ele afirmou que "a China está jogando um jogo de longo prazo. Eles não precisam invadir os EUA. Eles só precisam que você compre um carro deles".
O Congresso tem agora a chance de agir. O SPY CAR Act pode ser votado ainda em setembro. Se aprovado, será um marco na defesa da soberania digital americana. Se rejeitado, cada americano que entrar em um carro novo estará, sem saber, convidando Pequim para dentro de sua garagem.
**1. O SPY CAR Act proíbe todos os carros chineses ou apenas veículos conectados?** O projeto de lei apresentado pelos senadores Rubio e Cotton proíbe a importação e venda de qualquer veículo que contenha sistemas de comunicação ou sensoriamento fabricados por empresas chinesas listadas como ameaças à segurança nacional. Isso inclui carros totalmente chineses, como BYD e NIO, mas também veículos de montadoras americanas que usam componentes eletrônicos chineses em seus sistemas de conectividade. A lei dá um prazo de 18 meses para que as fabricantes substituam esses componentes, sob pena de multas e proibição de venda.
**2. Como o consumidor pode saber se seu carro está enviando dados para a China?** Atualmente, não há uma exigência legal nos EUA para que montadoras divulguem o destino dos dados coletados pelos veículos. No entanto, o DHS disponibilizou um site onde o proprietário pode verificar o VIN (número de identificação do veículo) para saber se o modelo está sob investigação. Organizações como a Electronic Frontier Foundation (EFF) recomendam que consumidores desabilitem serviços de telemetria e conectividade sempre que possível, e que exijam das montadoras contratos claros de privacidade. O SPY CAR Act, se aprovado, obrigará a inclusão de um selo de privacidade no painel do carro.
Por Renan Filho · 2026-09-21