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O 'padrinho da IA' soa o alarme: Congresso dos EUA caminha para o desastre regulatório

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

Geoffrey Hinton, considerado um dos pais da inteligência artificial, alertou que o Legislativo americano não compreende a profundidade da crise que se avizinha. Enquanto isso, o mercado já corre muito à frente dos burocratas.

Geoffrey Hinton, o pesquisador que ajudou a criar as redes neurais que hoje movem chatbots e sistemas autônomos, não mediu palavras ao comentar a atuação do Congresso dos Estados Unidos diante da revolução da inteligência artificial. Em publicação nas redes sociais no início de setembro, Hinton afirmou que os parlamentares “sequer entendem o vocabulário básico da tecnologia” e que o país “caminha para uma crise de governança que pode custar caro em competitividade e segurança”. O alerta não é isolado. Nos bastidores, lobistas de Big Techs e startups disputam cada vírgula de projetos de lei que tramitam em comissões no Capitólio.

O chamado “AI godfather” tem razão. O ritmo do Congresso é incompatível com a velocidade da inovação. Enquanto comitês realizam audiências públicas com especialistas, empresas como OpenAI, Anthropic e Google DeepMind já implantaram modelos de linguagem que superam testes de raciocínio lógico e geram códigos de software inteiros em segundos. O resultado é um abismo regulatório: leis pensadas para o mundo analógico tentam enquadrar uma tecnologia que evolui em ciclos de semanas.

Por que isso importa? Porque a inércia legislativa não significa liberdade — significa vácuo. E vácuo é preenchido por burocratas de agências como a FTC e a FCC, que já demonstraram inclinação a impor regras restritivas sem debate democrático. Em audiência no Senado em julho, o senador Josh Hawley (R-MO) afirmou que “se o Congresso não agir, tribunais e agências reguladoras escreverão as regras sozinhos”. A frase, citada por diversos veículos, expõe o dilema: entre uma regulação mal feita e a autorregulação do mercado, o Legislativo parece preferir o pior dos mundos — inação seguida de pânico regulatório.

A análise FORTIS enxerga na crise um sintoma do intervencionismo que sempre ameaça o empreendedorismo. O movimento mais perigoso em curso é a tentativa de classificar sistemas de IA como “produtos de alto risco” — conceito vago que dá poder discricionário a burocratas para barrar inovações antes mesmo de chegarem ao consumidor. Projetos como o AI Act europeu já servem de inspiração para parlamentares democratas, que ignoram os efeitos colaterais: startups americanas perderão talentos e capital para jurisdições mais amigáveis, especialmente em estados como Texas e Flórida, que já sinalizaram interesse em se tornar paraísos de IA.

No entanto, há vozes que discordam da abordagem liberal. Em carta aberta publicada em maio, um grupo de ex-funcionários da OpenAI — incluindo Leah Kuo, que atuou na equipe de políticas públicas — pediu que o Congresso crie uma agência federal dedicada à IA, nos moldes da FDA. A argumentação é que externalidades negativas, como a geração de desinformação em massa e o viés algorítmico, exigem supervisão estatal. O problema, como apontam críticos, é que esse mesmo modelo de agência já se mostrou capturado por interesses corporativos e lento para reagir a inovações — basta ver o histórico da FDA com aprovação de medicamentos e dispositivos médicos.

A crise, portanto, é real. Mas a resposta não virá de Washington se os legisladores continuarem a tratar a IA como mais uma indústria a ser domada por licenças, alvarás e comitês de ética. O mercado, por sua vez, já está se autorregulando: empresas líderes criaram comitês internos de segurança, publicam relatórios de impacto e competem por talentos que garantam padrões éticos mínimos — não por altruísmo, mas porque consumidores e investidores exigem transparência. É a mão invisível funcionando melhor do que qualquer gabinete burocrático.

O que Hinton realmente pede não é uma regulação draconiana — ele mesmo já disse, em entrevista à BBC, que “parar o desenvolvimento da IA seria tão errado quanto parar a eletricidade no século XIX”. O alarme do padrinho da IA é contra a ignorância. Se o Congresso não se preparar com seriedade técnica e respeito ao livre mercado, a crise será dupla: perda de liderança tecnológica para a China e sufocamento regulatório das startups americanas.

**1. O Congresso dos EUA está realmente despreparado para lidar com a IA?** Sim, segundo especialistas de diferentes espectros. Em depoimento ao Comitê de Comércio do Senado em junho, o professor Yoshua Bengio (Universidade de Montreal) afirmou que “a maioria dos parlamentares não tem formação técnica para avaliar riscos e benefícios”. Dados do Congressional Research Service mostram que menos de 5% dos assessores legislativos possuem formação em ciência da computação. Enquanto isso, o número de projetos de lei relacionados à IA saltou de 12 em 2021 para mais de 80 em 2025, mas apenas dois se tornaram lei — ambos tratando de temas periféricos como transparência em anúncios.

**2. Qual é a posição liberal sobre a regulação da inteligência artificial?** A posição liberal clássica defende que o Estado deve intervir apenas para garantir contratos, propriedade intelectual e segurança contra fraudes comprovadas — não para pré-aprovar tecnologias. Modelos como a “regulação responsiva”, proposta pelo economista Adam Thierer, sugerem que o governo espere por evidências de danos concretos antes de agir, priorizando a autorregulação e a responsabilidade civil. Experiências históricas — como a internet comercial dos anos 1990, que floresceu sob pouca regulação — indicam que abordagens intervencionistas precoces tendem a beneficiar grandes incumbentes em detrimento de novos entrantes.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.