A denúncia foi feita em publicação nas redes sociais pelo ex-subsecretário de Defesa para Assuntos de Inteligência, Michael Vickers, que classificou a situação como "real e crescente". Segundo Vickers, a instalação chinesa em Djibuti, a pouco mais de 9 quilômetros da base americana de Camp Lemonnier, não é um simples posto logístico, mas uma sofisticada estação de coleta de sinais (SIGINT) e guerra eletrônica. A informação foi corroborada por imagens de satélite analisadas por think tanks de defesa, que mostram antenas parabólicas e edifícios de comando em um perímetro que mais parece uma fortaleza digital do que uma base de apoio à missão antipirataria.
O dado central é geográfico e estratégico: Djibuti abriga a única base militar permanente dos EUA na África, com cerca de 4 mil soldados, e também a primeira base militar chinesa no exterior, inaugurada em 2017. A proximidade física entre os dois complexos — separados por apenas 12,8 quilômetros de distância, com a base chinesa a cerca de 10 quilômetros do perímetro americano — transformou o pequeno país do Chifre da África no epicentro de uma nova Guerra Fria digital. Enquanto Washington trata a região como ponto de apoio para operações antiterroristas e contra a pirataria, Pequim expande silenciosamente sua capacidade de interceptar as comunicações navais e comerciais que cruzam o Mar Vermelho, um dos maiores gargalos energéticos do planeta.
A China nega as acusações, classificando-as de "desinformação infundada" e "falsa narrativa", em nota oficial do Ministério das Relações Exteriores. Mas o ex-comandante do Comando Indo-Pacífico, almirante aposentado James Stavridis, afirmou em entrevista à imprensa que "subestimar a capacidade de espionagem chinesa em Djibuti é um erro que pagaremos caro no próximo conflito". A preocupação não é exclusividade dos EUA: a França, que também mantém base em Djibuti, já relatou tentativas de interceptação de seus jatos de reconhecimento por parte de aeronaves chinesas na região.
Por que isso importa: o Mar Vermelho é a espinha dorsal do comércio global — 12% do petróleo transportado por via marítima e 8% do comércio mundial de grãos passam por suas águas. Um centro de espionagem chinês a poucos quilômetros de uma base americana não é apenas um problema militar: é uma ameaça direta à liberdade de navegação e à segurança energética da Europa e da Ásia. Se Pequim conseguir rastrear em tempo real os movimentos da frota americana e dos navios mercantes, terá em mãos uma vantagem assimétrica em qualquer crise no Oriente Médio — e um instrumento de coerção contra países que dependem do comércio marítimo.
A análise da FORTIS é direta: a China não precisa de uma guerra para vencer; precisa apenas de informação e posição. Djibuti é o exemplo perfeito do jogo de xadrez que Pequim joga há décadas — comprar ou construir bases em pontos estratégicos, enquanto o Ocidente se preocupa com discursos de democracia e direitos humanos. O livre mercado de segurança, como qualquer outro, exige que os EUA e seus aliados invistam mais em inteligência de contraespionagem e em acordos de acesso a bases com países africanos em vez de depender de uma única âncora militar. A proximidade das bases é um teste de fôlego: quem tem mais a perder — uma superpotência global com interesses em todo o mundo ou uma potência revisionista que quer reescrever as regras do comércio?
Há quem argumente que a presença chinesa em Djibuti é uma forma de garantir a segurança de seus próprios navios e rotas comerciais, e que a base americana em Camp Lemonnier já opera há anos com capacidade de interceptar comunicações chinesas na região. De fato, os EUA mantêm uma estação de drones e uma pista de pouso que são consideradas vitais para operações na Somália e no Iêmen. No entanto, a diferença está na escala e na natureza da ameaça: enquanto Washington usa sua base para projeção de força e combate ao terrorismo, Pequim parece estar construindo uma capacidade de negação de área e de guerra eletrônica que pode ser usada para cegar a inteligência americana em um cenário de crise. Os defensores da China ainda lembram que o país não tem histórico de agressão militar desde a Guerra do Vietnã, mas a história recente do Mar do Sul da China mostra que a paciência chinesa não é sinônimo de passividade — é uma estratégia de longo prazo.
No fim, o alerta de Michael Vickers é um lembrete de que a segurança nunca é um dado adquirido, mas uma construção diária de inteligência, dissuasão e alianças. No jogo do poder global, informação é moeda forte — e a China está acumulando reservas enquanto o Ocidente discute tarifas e mudanças climáticas. Se os EUA não responderem à altura, a próxima crise no Mar Vermelho pode não começar com um disparo, mas com uma mensagem interceptada que revela todos os segredos.
Por Renan Filho · 2026-09-21