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Internacional

Após 6 meses de guerra, EUA devem se preparar para o dia seguinte à queda do Irã

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

O colapso do regime iraniano não é mais uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’. Para Washington, o maior erro seria não ter um plano econômico e geopolítico para o pós-guerra.

Seis meses de conflito intenso no Oriente Médio já bastaram para transformar a correlação de forças na região. O regime iraniano, que por décadas se sustentou em uma teia de milícias e repressão interna, agora enfrenta o colapso iminente de suas estruturas. Para os Estados Unidos, a pergunta que deveria dominar os corredores do Pentágono e do Departamento de Estado não é mais sobre como conter o Irã, mas como administrar o vácuo de poder que virá.

O governo americano, sob a administração Trump, já sinalizou que não repetirá o erro do Afeganistão. Em publicação nas redes sociais, o presidente afirmou que “não haverá nation building” e que a prioridade é a estabilidade econômica baseada em contratos de livre mercado, não em burocratas de Washington. A declaração ecoa uma visão liberal clássica: o melhor antídoto para o radicalismo não é a democracia imposta, mas a liberdade econômica.

O contexto atual é de guerra total contra os proxies iranianos. Desde outubro de 2023, Israel, apoiado por inteligência e munição americanas, destruiu boa parte da capacidade logística do Hezbollah no Líbano e do Hamas em Gaza. O Irã, que apostava em uma guerra de desgaste, viu seu principal ativo — a capacidade de projetar poder por meio de terceiros — ser desmantelado em semanas. Conforme nota oficial do Comando Central dos EUA (CENTCOM), mais de 80% dos estoques de mísseis de precisão do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foram eliminados em ataques coordenados.

Por que isso importa para os Estados Unidos? Porque o colapso do regime iraniano não será um evento limpo. Assim como na queda da União Soviética, o risco de fragmentação, guerra civil e proliferação de armas é real. Diferentemente de 1991, porém, o Irã possui um programa nuclear em estágio avançado. Segundo relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Teerã já possui urânio enriquecido a 60%, o suficiente para construir múltiplas ogivas em questão de semanas se houver decisão política.

A análise da FORTIS é direta: os EUA precisam abandonar de vez a fantasia intervencionista. O que funciona é criar condições para que a sociedade civil iraniana — uma das mais educadas e empreendedoras do Oriente Médio — possa reconstruir o país sem amarras estatais. O Irã pré-revolução era uma potência econômica regional justamente porque havia liberdade comercial. O caminho não é ocupar Teerã, mas abrir o mercado para investimentos privados, remover sanções punitivas contra o povo e garantir que o novo governo seja minimalista.

Há um precedente histórico que os planejadores americanos deveriam estudar: a reconstrução do Japão após 1945. Na época, o general Douglas MacArthur entendeu que a chave não era controlar cada aspecto da vida japonesa, mas sim liberar as forças de mercado e reformar as instituições para evitar o monopólio estatal. O resultado foi o milagre econômico japonês. O Irã, com sua população jovem e recursos naturais abundantes, pode seguir caminho semelhante — desde que Washington não interfira com burocracia e planos quinquenais.

Contraponto: críticos argumentam que o Irã é um país com profundas divisões étnicas e religiosas, e que uma queda abrupta do regime poderia levar a um banho de sangue entre facções. Além disso, há o temor de que grupos como o Estado Islâmico (ISIS) tentem ocupar o vácuo de segurança, como ocorreu no Iraque em 2014. A resposta liberal a esse argumento é que o Estado mínimo não significa ausência de Estado. Significa um Estado focado em segurança jurídica, defesa e proteção de propriedade privada — exatamente o oposto do Leviatã iraniano atual.

O que está em jogo é a chance de desmontar o último grande reduto do terrorismo patrocinado por Estado no mundo. Se os EUA falharem em se preparar agora, pagarão o preço em décadas de instabilidade. Se acertarem, poderão colher os frutos de um Oriente Médio integrado ao comércio global, com um Irã livre e próspero como locomotiva regional.

**1. Os EUA têm capacidade logística para ocupar o Irã e garantir a transição?** Não é necessário ocupação. A estratégia mais eficaz, segundo analistas do Hudson Institute, é o uso de forças especiais para assegurar locais estratégicos (usinas nucleares, portos, oleodutos) enquanto se apoia uma coalizão de exilados e líderes locais comprometidos com reformas de mercado. A experiência no Iraque mostrou que ocupação prolongada gera resistência e custos insustentáveis.

**2. O que impede o Irã de se tornar um novo Afeganistão após a queda do regime?** A diferença crucial é a estrutura social. O Irã possui uma classe média urbana significativa, uma diáspora altamente qualificada (estima-se que 5 milhões de iranianos vivam no exterior) e uma tradição de comércio que remonta à Rota da Seda. Enquanto o Afeganistão era majoritariamente rural e tribal, o Irã tem potencial para uma transição rápida se houver segurança jurídica e abertura econômica. O risco real é o intervencionismo excessivo de Washington, que pode sufocar exatamente o que precisa florescer.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.