Por décadas, a frase 'Todos os caminhos levam a Roma' serviu como metáfora do poder centralizado e da eficiência burocrática. Agora, um estudo conduzido pelo Complexity Science Hub Vienna e pela Academia Austríaca de Ciências revela que a afirmação é, no mínimo, exagerada. A pesquisa analisou 1.300 sítios arqueológicos e 200.000 quilômetros de estradas romanas usando algoritmos de redes complexas.
O resultado? Roma não era o único hub. Existiam múltiplos centros regionais — como Cartago, Antioquia e Londínio — com conexões mais densas entre si do que com a capital. A ideia de que todas as vias convergiam para o Tíber é um artefato de propaganda imperial, não de realidade logística. Conforme os autores do estudo, a rede romana era policêntrica e descentralizada, com fluxos comerciais determinando rotas, não ordens do Senado.
**Por que isso importa para os Estados Unidos?** O mito de Roma é repetido por estadistas e burocratas sempre que defendem projetos de infraestrutura comandados pelo governo federal. A narrativa de que um planejador central é capaz de coordenar milhões de decisões econômicas ecoa diretamente nos corredores de Washington. O estudo prova que, mesmo no auge do Império Romano, o sucesso da rede viária veio da adaptação às demandas locais de comércio e segurança, não de um plano quinquenal.
**Análise FORTIS:** Liberais sempre desconfiaram de Brasília e Washington como centros únicos de decisão. O estudo é a confirmação empírica da intuição de Hayek: o conhecimento é disperso, e sistemas descentralizados superam os centralizados. Os romanos venciam porque permitiam que as rotas se formassem organicamente, como um mercado. Quando o Império tentou controlar tudo de cima, começou o declínio. Aplicado aos EUA, isso sugere que a política de infraestrutura federal — como o pacote de US$ 1,2 trilhão de Biden — engessa investimentos. Estados e municípios, livres para competir e negociar, produziriam redes mais eficientes.
**Contraponto:** Críticos apontam que a manutenção de estradas romanas dependia do exército e do tesouro imperial, ou seja, de um Estado forte. De fato, sem a Pax Romana garantida por legiões, o comércio não floresceria. A própria descentralização exigia um mínimo de ordem central — como a defesa contra invasores. A questão não é abolir o governo, mas delimitar seu papel: segurança pública e direitos de propriedade, não planejamento econômico. O estudo reforça que, dado um ambiente seguro, o mercado encontra os caminhos mais curtos.
Por Renan Filho · 2026-09-22