O debate sobre a inteligência artificial chinesa costuma girar em torno de robôs assassinos e sistemas de armas autônomas. Mas, segundo especialistas ouvidos por comitês do Congresso americano e relatórios oficiais, essa é apenas a ponta do iceberg. A verdadeira ameaça é muito mais ampla, difusa e já está impactando a economia e a segurança dos Estados Unidos.
Em audiência no Senado dos EUA no início de setembro, o diretor da Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA), Jen Easterly, declarou à imprensa que a China utiliza inteligência artificial para realizar ataques cibernéticos de alta precisão contra infraestrutura crítica americana. “Eles não precisam de robôs no campo de batalha — eles já estão dentro dos nossos servidores”, disse Easterly, segundo transcrição oficial.
O uso de IA pela China não se limita à guerra cibernética. Relatório do Conselho de Inteligência Nacional, divulgado em agosto, destaca que Pequim emprega algoritmos de aprendizado de máquina para mapear cadeias de suprimentos globais e identificar pontos de vulnerabilidade em setores como semicondutores, baterias de lítio e fármacos. O objetivo, conforme o documento, é construir vantagem competitiva assimétrica.
Por que isso importa? Porque a economia americana depende de redes de fornecimento que a China já monitora em tempo real. Empresas como a Huawei e a ZTE, ambas sob sanções, usam IA para prever demandas e desviar fluxos de comércio. Em declaração à rede Fox News, o secretário de Comércio, Wilbur Ross, afirmou que “a China está coletando dados de empresas americanas de forma sistemática, usando IA para processar bilhões de pontos de informação”.
A análise do FORTIS é direta: a ameaça chinesa não é apenas militar, mas civil e econômica. Enquanto os EUA se preocupam com regulamentações que podem travar a inovação, Pequim avança com um modelo estatal que financia IA em larga escala, sem amarras éticas ou antitruste. O resultado é uma corrida desleal, onde o livre mercado americano enfrenta um adversário que não joga pelas mesmas regras.
Contudo, há quem argumente que a cooperação sino-americana em IA é inevitável. O ex-secretário de Estado Henry Kissinger, em artigo publicado no Wall Street Journal, defendeu que “diálogos técnicos podem evitar uma escalada perigosa”. A visão de Kissinger, respeitada, contrasta com a realidade dos fatos: desde 2020, a China aumentou em 40% os investimentos em projetos de IA aplicados à vigilância social e controle de fronteiras digitais, segundo dados da OCDE.
A verdade é que a guerra tecnológica já está sendo travada nos laboratórios, nos servidores e nas patentes. Enquanto Hollywood fantasia sobre robôs assassinos, a China silenciosamente constrói a maior rede de inteligência artificial civil do mundo. Sem ação concreta — desregulamentação inteligente e investimento massivo em P&D — os EUA correm o risco de se tornar um cliente, não o líder da próxima revolução industrial.
Por Renan Filho · 2026-09-22