O clima no Capitólio nunca esteve tão carregado quando o assunto é inteligência artificial. O que começou como um ‘safety scare’ — um susto coletivo com os riscos existenciais da IA — virou um ringue político onde a esquerda progressista e parte da direita intervencionista exigem barreiras duras, enquanto liberais e republicanos do libre mercado advertem: ‘estamos caminhando para entregar o futuro tecnológico para a China’. A frase, dita pelo deputado republicano Jay Obernolte durante audiência na Câmara na última terça-feira, ecoou nos corredores e já é bandeira de uma ala que enxerga a regulação como cavalo de Troia do statismo.
O estopim foi um relatório interno de uma grande empresa de tecnologia que apontava falhas críticas em modelos de linguagem de última geração, com potencial para ‘causar danos sistêmicos’. A imprensa tradicional tratou o caso como ‘apocalipse iminente’. No entanto, conforme publicação do Wall Street Journal, o documento vazado omitia que os riscos já haviam sido mitigados antes da implantação comercial. Ainda assim, a histeria serviu de combustível para que senadores democratas e alguns republicanos — como Josh Hawley e Marco Rubio — apresentassem projetos de lei que criam uma agência federal para licenciar e auditar todos os modelos de IA, numa estrutura que lembra o que a Europa tenta fazer com o AI Act.
Por que isso importa? Porque a inovação — motor da economia americana — está sendo trocada por um seguro contra o medo. Dados da Nvidia mostram que os EUA lideram o mercado global de chips de IA com 87% de participação, e empresas como OpenAI e Anthropic estão na vanguarda da pesquisa. Mas, segundo o senador Ted Cruz, em entrevista à Fox News, ‘se cada novo modelo precisar de aprovação burocrática de Washington, a vantagem competitiva dos EUA evapora’. A mesma opinião foi expressa pelo CEO da Scale AI, Alexandr Wang, em post no X: ‘Regulamentar agora é como colocar sinais de trânsito antes mesmo de a estrada ser asfaltada’.
A análise da FORTIS é clara: a briga não é sobre segurança, é sobre controle. A esquerda quer usar o pânico para instituir um ‘Ministério da Verdade’ digital, onde o governo decida o que pode ser criado. A direita populista vê na IA uma ameaça aos empregos e agarra a narrativa do ‘perigo existencial’. Enquanto isso, o livre mercado — que sempre corrigiu riscos com competição e reputação — é ignorado. Empresas que falham na segurança perdem clientes, investidores e processos judiciais. Esse mecanismo já funciona. A China, por outro lado, não está nem aí para debates éticos: o governo de Pequim investiu US$ 90 bilhões em IA só em 2025, sem qualquer escrúpulo democrático. Se os EUA colocarem uma jaqueta de força regulatória, a lacuna será preenchida por autoritarismo tecnológico.
Contraponto: os defensores do AI Safety Act, como a senadora Elizabeth Warren, argumentam que ‘sem guardrails, a IA pode amplificar desigualdades, destruir eleições e até causar catástrofes’. Não é mentira. Mas a abordagem proposta — licenciamento obrigatório, auditoria estatal e exigência de ‘caixa-preta’ explicável — é um desastre para startups. Pequenas empresas não têm capital para enfrentar custos regulatórios de milhões de dólares, enquanto gigantes como Google e Microsoft já têm departamentos jurídicos prontos para navegar na burocracia. Na prática, a regulação mata a concorrência e cristaliza monopólios. A Ironia, apontada pelo Institute for Progress, é que os maiores defensores do licenciamento são justamente as big techs que já dominam o setor — um clássico caso de ‘regulatory capture’.
O debate não pode parar no medo. A pergunta que todo americano deve fazer ao seu representante: ‘Você quer que a China decida o futuro da inteligência artificial?’ Porque se o Capitólio continuar nessa toada de criar amarras a cada susto, a resposta será um amargo ‘sim’.
Por Renan Filho · 2026-09-20