Os resultados das eleições estaduais na Alemanha deste fim de semana confirmam uma tendência preocupante para os defensores do livre mercado e da estabilidade institucional. Em Berlim, a candidata do partido A Esquerda (Die Linke), Elif Eralp, conquistou uma vitória clara, com mais de 28% dos votos, segundo projeções da ARD. Enquanto isso, em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a primeira-ministra social-democrata Manuela Schwesig (SPD) ficou atrás do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que alcançou cerca de 24% contra 22% dos social-democratas, conforme levantamento do Instituto Infratest dimap divulgado pela Deutsche Welle.
O cenário revela uma fragmentação partidária sem precedentes desde a reunificação. O partido de Eralp, que já teve força apenas no leste, agora domina a capital do país com uma plataforma abertamente socialista: controle de aluguéis, estatização de habitações e aumento de impostos sobre grandes fortunas. Em declaração à imprensa local, Eralp comemorou o resultado como “um mandato para construir uma Berlim mais justa e anticapitalista”. Por outro lado, a AfD capitaliza o descontentamento com a imigração descontrolada e a burocracia verde imposta por Berlim.
Para entender o que está em jogo, é necessário recuar alguns anos. A Alemanha enfrenta uma estagnação econômica real, com o PIB encolhendo 0,3% em 2023 e as reformas estruturais da Agenda 2010 sendo progressivamente desmontadas. A política energética do governo federal – que fechou usinas nucleares e dependeu do gás russo – elevou os custos para famílias e empresas. Nesse caldo de desilusão, o eleitor busca soluções simplistas. A esquerda radical promete congelamento de aluguéis em uma cidade onde o mercado imobiliário é sufocado por regulações; a direita radical promete fechar fronteiras e rejeitar a agenda climática.
Por que isso importa? Porque Berlim é o motor político e cultural da Alemanha, e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental representa o leste rural que já votou maciçamente na CDU de Angela Merkel. A vitória de Eralp pode inspirar políticas intervencionistas que já mostraram fracasso em outras capitais europeias, como Paris e Viena. Conforme análise do Instituto de Economia de Kiel, as medidas de controle de aluguéis em Berlim reduziram a oferta de moradias em 15% nos últimos dois anos. Enquanto isso, a força da AfD no leste sinaliza que a imigração desordenada e a perda de identidade cultural são temas que o establishment insiste em ignorar.
A análise da FORTIS é direta: o eleitor alemão está reagindo racionalmente a um sistema que falhou em entregar prosperidade e segurança. A esquerda radical compra votos com promessas de subsídios e regulação, mas não gera riqueza – ela apenas redistribui o pouco que resta. A direita radical explora medos legítimos, mas oferece um projeto nacionalista que, se implementado, fecharia a Alemanha para o comércio global e para a imigração qualificada de que o país necessita. Em publicação nas redes sociais, o economista Hans-Werner Sinn, do Instituto Ifo, alertou: “A Alemanha está caminhando para uma social-democracia insustentável ou para um populismo autossuficiente.”
O contraponto, é claro, existe. Partidários de Eralp argumentam que Berlim precisa de moradia acessível e que o mercado não resolve o problema. Dados oficiais do Senado de Berlim mostram que o preço médio do metro quadrado subiu 40% desde 2016, mesmo com as intervenções. Mas o que esses dados não revelam é que a própria regulação – como a lei do aluguel máximo – desencorajou novos construções. Já os apoiadores da AfD apontam que, sem controle de imigração, a segurança pública e o sistema de bem-estar social entram em colapso. No entanto, segundo relatório da Polícia Federal Alemã (BKA), a criminalidade violenta caiu 11% entre 2015 e 2022, contrariando o discurso do medo.
O resultado dessas eleições deve ser um alerta para os liberais: o centro está morrendo. O próximo governo federal, que deve ser formado em 2025, precisará de uma coalizão que inclua forças radicais. Berlim verá, nos próximos meses, uma batalha entre o intervencionismo de Eralp e os freios impostos pela burocracia federal. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a primeira-ministra Schwesig pode perder o cargo se não conseguir uma coalizão, abrindo caminho para um governo AfD ou uma aliança instável de centro-esquerda.
Em um ambiente de baixo crescimento e alta polarização, a única saída sustentável é a liberalização econômica: corte de impostos, desregulamentação do mercado imobiliário e reforma do sistema de imigração para atrair talentos. Enquanto isso, o eleitor alemão continuará punindo os partidos tradicionais – e a Europa inteira observa com apreensão.
Por Renan Filho · 2026-09-20