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Economia

O Apagar dos Fornos em Duisburg: O Fim da Siderurgia Alemã como a Conhecemos

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

O último alto-forno de Duisburg está prestes a ser desligado para sempre. A crise do aço alemão não é acidental: é o resultado de décadas de intervencionismo estatal, custos energéticos insustentáveis e uma burocracia ambiental que sufoca a indústria. A Alemanha, outrora locomotiva industrial, assiste à sua própria desindustrialização.

A paisagem industrial de Duisburg, no coração do Vale do Ruhr, sempre foi definida pelo brilho laranja dos altos-fornos. Mas esse brilho está se apagando. No fim de 2026, a ThyssenKrupp Steel Europe confirmou, em nota oficial, o cronograma para o desligamento definitivo de sua última unidade integrada de produção de aço primário na cidade. A decisão, anunciada em meio a uma profunda reestruturação, representa o fim simbólico de uma era que sustentou a economia alemã por mais de um século.

O contexto é implacável. Desde 2022, o preço do gás natural na Alemanha disparou, tornando a produção siderúrgica europeia a mais cara do mundo. Em publicação nas redes sociais, o Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW) apontou que os custos energéticos na Alemanha são três vezes superiores aos dos Estados Unidos e o dobro dos da China, com forte desvantagem no chamado 'aço verde'. A transformação forçada para hidrogênio verde, exigida pelo Green Deal europeu, exige investimentos bilionários que, sem um mercado livre de energia, se tornam inviáveis.

Por que isso importa? Porque a siderurgia não é apenas um setor; é a base da cadeia produtiva alemã. Automóveis, máquinas, construção civil e energia dependem do aço nacional. Com o fechamento de Duisburg, milhares de empregos diretos e dezenas de milhares de indiretos serão extintos. O governo federal, em declaração à imprensa do Ministério da Economia, prometeu pacotes de reconversão profissional, mas a história mostra que essas promessas raramente compensam a perda de um ecossistema industrial inteiro.

A análise FORTIS enxerga aqui um padrão repetido: a intervenção do Estado alemão no mercado de energia — com subsídios cruzados, taxas de rede elevadas e impostos sobre o carbono — criou um ambiente hostil à indústria de base. Enquanto isso, a China e os Estados Unidos, com políticas mais pragmáticas e custos energéticos competitivos, atraem as plantas siderúrgicas. A saída liberal seria a desregulamentação do mercado de energia alemão, permitindo contratos de longo prazo e a eliminação de encargos parafiscais que encarecem a eletricidade. Sem isso, o êxodo industrial é inevitável.

Há um contraponto, no entanto. Ambientalistas, em entrevista à Rádio Deutschlandfunk, celebram o fechamento como uma vitória contra a poluição. A Fundação Heinrich Böll, em publicação no seu site, argumenta que a descarbonização exige sacrifícios e que o 'aço verde' pode gerar novos empregos mais limpos no futuro. Esse otimismo ignora, porém, que as alternativas tecnológicas ainda não são competitivas sem subsídios maciços — que, por sua vez, são pagos pelo contribuinte. O resultado é um impasse: perde-se a indústria de hoje sem garantir a de amanhã.

O caso de Duisburg não é isolado. Em 2024, a ArcelorMittal já havia fechado unidades na Alemanha. A ThyssenKrupp, em comunicado a seus acionistas, afirmou que manterá apenas a produção de aço especial em outros locais. A cidade de Duisburg, que já perdeu 40% de sua população desde os anos 1970, encara uma nova onda de desemprego estrutural. A pergunta que fica é: até quando o governo alemão continuará apostando em uma política energética que destrói seu próprio parque industrial?

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.