A imprensa alinhada ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tem dedicado espaço generoso e elogioso a uma figura pouco conhecida do grande público alemão: a deputada Sevim Dağdelen, do partido Die Linke (A Esquerda). Em publicações nas redes sociais e artigos em veículos como o Daily Sabah e a agência estatal Anadolu, Dağdelen é retratada como uma voz corajosa contra o “imperialismo ocidental” e a “islamofobia”. A estratégia, no entanto, não é sobre solidariedade ideológica, mas sobre um jogo de poder pragmático.
O elogio público de Ancara a uma política que defende o fim das sanções à Rússia e critica abertamente a OTAN serve a um propósito claro: desestabilizar a coesão política alemã em temas sensíveis para Erdogan. A deputada, em declaração à imprensa alemã, classificou a visita de chanceler Olaf Scholz a Ancara como “submissão”, ecoando o discurso do governo turco de que Berlim precisa ceder em temas como a extradição de opositores e a venda de armas. Para o establishment turco, cada crítica interna alemã à política externa de Berlim é uma vitória tática.
O contexto é a crescente tensão entre Alemanha e Turquia, dois pilares da OTAN que vivem uma relação de dependência mútua e desconfiança crônica. A Alemanha abriga a maior diáspora turca do mundo, com cerca de 3 milhões de pessoas, e é um dos principais parceiros comerciais de Ancara. Ao mesmo tempo, Berlim critica abertamente o recuo democrático na Turquia, a repressão a curdos e a política externa agressiva de Erdogan no Mediterrâneo Oriental e no Cáucaso.
Por que isso importa para o leitor liberal? Porque revela a face mais cínica do realpolitik: Erdogan não se importa com a agenda econômica de Dağdelen – que inclui estatizações e controle de preços, algo abominável para qualquer liberal –, mas valoriza seu potencial de causar ruído dentro do sistema alemão. A tática é antiga: apoiar o inimigo do seu inimigo. Se a esquerda radical alemã enfraquece o governo Scholz, especialmente em temas de defesa e sanções à Rússia, Ancara ganha margem para negociar.
A análise FORTIS enxerga a jogada como um reflexo da fragilidade da posição turca. Erdogan enfrenta uma crise econômica profunda, com inflação galopante e desemprego, e precisa de vitórias diplomáticas para desviar a atenção interna. Celebrar uma figura marginal da política alemã é um gesto barato que custa pouco, mas que alimenta a narrativa de que a Turquia ainda é um ator relevante no xadrez europeu. Para o liberalismo, o movimento é preocupante: ele incentiva a polarização e a fragmentação política dentro da Alemanha, enfraquecendo as instituições que garantem a estabilidade do livre comércio e da aliança ocidental.
Contraponto: defensores do governo turco argumentam que a mídia de Ancara apenas dá voz a uma parlamentar eleita democraticamente, que representa uma parcela real da opinião pública alemã. Segundo analistas pró-governo turco, em entrevista à Rádio Deutsche Welle, ignorar Dağdelen seria antidemocrático. O problema, rebatem críticos, é o tom de celebração e o uso seletivo: a mesma mídia que exalta a deputada de esquerda silencia ou ataca políticos alemães de centro-direita que defendem valores liberais e a OTAN. A incoerência revela o oportunismo.
Para o liberalismo clássico, a lição é clara: alianças geopolíticas não devem ser confundidas com afinidade ideológica. Erdogan não é um aliado natural da esquerda alemã, assim como não é um parceiro confiável da OTAN. Ele é um líder autoritário que usa o discurso antiocidental para consolidar poder interno. Celebrar uma política que quer desmantelar o capitalismo na Alemanha é, para ele, apenas mais um instrumento para enfraquecer um rival regional.
O movimento de Ancara expõe a fragilidade das democracias liberais diante de ataques híbridos. Ao dar palco para vozes radicais dentro do sistema alemão, Erdogan testa os limites da tolerância democrática. A pergunta que fica é: até que ponto a Alemanha e a Europa vão tolerar que um país membro da OTAN financie, mesmo que indiretamente, a desestabilização de sua política interna?
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**1. Por que a Turquia de Erdogan celebra uma política de esquerda alemã se o governo turco é autoritário e nacionalista?** A celebração não é ideológica, mas tática. Erdogan vê na deputada Sevim Dağdelen uma ferramenta útil para criticar o governo alemão e a OTAN, independentemente de sua agenda econômica estatizante. No realpolitik, o inimigo do meu inimigo é meu aliado temporário. A estratégia de Ancara é enfraquecer a coesão alemã em temas de defesa e sanções à Rússia, ganhando assim mais poder de barganha nas negociações bilaterais.
**2. Qual o risco dessa estratégia para a Alemanha e para o Ocidente liberal?** O risco é o aprofundamento da polarização política na Alemanha, especialmente entre a comunidade turco-alemã, que pode ser influenciada por narrativas externas. Para o Ocidente liberal, a tática de Erdogan representa um ataque híbrido à estabilidade democrática: ao dar visibilidade a vozes radicais que questionam a aliança ocidental, Ancara enfraquece a OTAN de dentro. A longo prazo, isso pode corroer a confiança nas instituições e dificultar a tomada de decisões coesas em política externa.
Por Renan Filho · 2026-09-21