Berlim, Alemanha — O governo alemão criou em 2022, sob o impacto da invasão russa à Ucrânia, um fundo especial de €100 bilhões (Sondervermögen) para modernizar a Bundeswehr, as Forças Armadas do país. O gesto foi amplamente celebrado como um ponto de inflexão na política de defesa alemã, que há décadas sofria com cortes orçamentários e sucateamento de equipamentos.
Os recursos foram aprovados pelo Parlamento e estão disponíveis. Mas, até setembro de 2024, menos de 20% dos projetos previstos foram contratados. As escavadeiras e os guindastes que deveriam estar erguendo novos depósitos de munição, hangares e centros de treinamento ainda estão parados. O problema não é a falta de dinheiro — é a máquina estatal alemã.
O Sondervermögen foi criado como um instrumento extraorçamentário, fora do teto de gastos constitucional (Schuldenbremse). A ideia era dar agilidade às compras militares, evitando a lentidão do processo orçamentário anual. Na prática, porém, a burocracia alemã encontrou maneiras de travar até mesmo os gastos extraordinários.
Cada contrato acima de €500 mil precisa passar por uma série de auditorias, licitações e aprovações do Ministério da Defesa e do Ministério das Finanças. O processo, em média, leva entre 18 e 24 meses. Enquanto isso, os €100 bilhões rendem juros nos cofres do banco central — e a Bundeswehr continua operando com equipamentos da Guerra Fria.
O caso mais emblemático é o do helicóptero de ataque H145M, da Airbus. O Exército alemão precisa de 82 unidades para substituir os antigos Tiger, que estão quebrados e sem peças de reposição. O contrato foi aprovado em 2023, mas até hoje as aeronaves não foram entregues. O motivo: a Airbus alega que a burocracia alemã exige certificações ambientais e de segurança que não existem em nenhum outro país da OTAN.
Outro exemplo é a compra de munição de artilharia de 155 mm. A Alemanha prometeu enviar projéteis para a Ucrânia, mas os estoques estão tão baixos que o governo precisa comprar de fornecedores estrangeiros. O Ministério da Defesa abriu uma licitação internacional em janeiro de 2024. Até agora, nenhum contrato foi assinado. As empresas reclamam que as exigências de conteúdo local e as cláusulas de responsabilidade são inviáveis.
O chanceler Olaf Scholz, em discurso no Bundestag em 12 de setembro, reconheceu o problema: "Precisamos de mais velocidade nas aquisições. O dinheiro está lá, mas a máquina precisa andar mais rápido." A declaração, porém, não veio acompanhada de nenhuma medida concreta para desburocratizar o processo.
A oposição conservadora, liderada pela CDU, critica abertamente a gestão. O porta-voz de Defesa da CDU, Florian Hahn, afirmou em entrevista ao jornal Die Welt: "O governo gastou mais tempo discutindo a cor do uniforme do que comprando munição. O Sondervermögen é um monumento à incompetência administrativa."
A análise do FORTIS é direta: o caso alemão é um exemplo clássico do fracasso do Estado europeu. O governo tributa os cidadãos em mais de 45% do PIB, mas entrega serviços piores do que países com carga tributária muito menor. A Alemanha tem a maior economia da Europa, mas suas Forças Armadas não conseguem defender sequer o próprio território, quanto mais cumprir compromissos com a OTAN.
O problema não é exclusivo da Alemanha. Em toda a Europa, os gastos militares aumentaram após 2022, mas a eficiência dos gastos continua baixíssima. A França compra caças Rafale a €200 milhões cada, mas não tem pilotos suficientes para operá-los. O Reino Unido reduziu o Exército ao menor tamanho desde as Guerras Napoleônicas, enquanto gasta bilhões em sistemas de mísseis que ainda não foram testados.
O livre mercado oferece uma solução óbvia: terceirizar a logística militar para empresas privadas, eliminar as exigências de conteúdo local nas licitações e permitir que a Bundeswehr compre equipamentos prontos no mercado internacional, sem adaptações burocráticas. Mas a mentalidade estatista europeia prefere manter o controle centralizado, mesmo que isso signifique paralisia.
Enquanto isso, a Rússia não espera. Moscou aumentou sua produção de munição em 400% desde o início da guerra, segundo estimativas da inteligência americana. A Alemanha, que deveria ser o pilar da defesa europeia, está perdendo a corrida armamentista não por falta de recursos, mas por excesso de Estado.
O Sondervermögen é um lembrete de que dinheiro não resolve tudo. Sem reformas estruturais, sem redução da burocracia e sem uma mudança cultural em direção à eficiência, os €100 bilhões podem se tornar apenas mais um capítulo na história do desperdício estatal europeu.
Por Renan Filho · 2026-09-24