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Internacional

Scheinwahl na Rússia: os métodos de fraude de Putin e o silêncio cúmplice da Alemanha

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

Enquanto o Kremlin celebra mais uma ‘vitória’ esmagadora nas urnas, relatórios de observadores independentes apontam para um sistema de fraudes sistemáticas que vai do voto eletrônico manipulado à intimidação de eleitores. Para Berlim, o dilema entre negócios e valores continua a paralisar qualquer reação à altura.

A Rússia realizou no último fim de semana mais um capítulo da sua longa tradição de farsas eleitorais. Com 87% dos votos para Vladimir Putin, segundo números oficiais, a eleição presidencial russa de 2024 foi descrita por observadores da OSCE como “carente de concorrência genuína” e “marcada por restrições sistemáticas à liberdade de expressão e de reunião”. O relatório preliminar da organização, divulgado no dia seguinte ao pleito, documenta dezenas de irregularidades, incluindo a exclusão de candidatos da oposição real, a manipulação de atas eleitorais e o uso de voto eletrônico sem auditoria independente.

O método preferido do Kremlin, de acordo com o relatório da OSCE, é a combinação de pressão psicológica nos locais de votação com a contagem paralela controlada por autoridades locais. Em declaração à imprensa, a chefe da missão de observação, a deputada alemã Ute Frevert (Verdes), afirmou que “não houve condições mínimas para uma eleição livre e justa”. Ela citou casos de eleitores sendo filmados dentro das cabines, de urnas sendo transportadas sem vigilância e de servidores públicos coagidos a votar antecipadamente sob supervisão de superiores.

A resposta de Moscou foi previsível: o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou o relatório como “politicamente motivado” e afirmou que a Rússia “não precisa de lições de democracia de países que bombardeiam civis no Oriente Médio”. A agência de notícias estatal RIA Novosti republicou supostas descobertas de “especialistas” que apontariam que a OSCE usa “critérios ocidentais” incompatíveis com a “tradição russa de voto”.

Para o cidadão comum russo, a farsa é evidente, mas a repressão impede qualquer contestação relevante. O movimento Golos, uma das poucas ONGs de monitoramento eleitoral ainda ativas na Rússia, foi declarado “agente estrangeiro” e teve seus dados confiscados semanas antes da eleição. Em publicação nas redes sociais, o grupo denunciou que mais de 300 de seus observadores foram detidos ou impedidos de entrar nos locais de votação. “A máquina eleitoral russa é uma engrenagem que tritura qualquer esperança de alternância”, escreveu o jornalista independente Mikhail Zygar, exilado na Letônia, em seu canal no Telegram.

Por que isso importa para a Alemanha – e para o leitor liberal? A resposta está na geopolítica do gás e do comércio. Enquanto a União Europeia impõe sanções cada vez mais duras, Berlim continua a comprar gás natural liquefeito russo via terminais de terceiros países, e empresas alemãs mantêm operações na Rússia, como a Siemens Energy, que ainda presta serviços de manutenção em turbinas. Em entrevista à rádio Deutschlandfunk, o economista Hans-Werner Sinn, do Ifo Institute, afirmou que “a Alemanha depende de importações de energia, mas a alternativa ao gás russo não pode ser financiar a repressão”.

A análise FORTIS é clara: a farsa eleitoral russa não é um desvio, mas a consequência lógica de um regime que suprime a propriedade privada, controla a mídia e trata o Estado como negócio familiar. Para liberais de verdade, a defesa da democracia não é um ideal abstrato: é a garantia de que contratos sejam respeitados, de que a concorrência seja justa e de que a propriedade não seja confiscada a qualquer momento. A Rússia de Putin falha em todos esses quesitos.

No entanto, há quem relativize. Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha declarou que “não reconhece o resultado das eleições como legítimo”, mas evitou mencionar novas sanções ou o cancelamento de vistos para oligarcas. O chanceler Olaf Scholz, em declaração à imprensa, disse que “o diálogo com a Rússia é necessário para a segurança europeia”. Para os críticos, essa postura é um convite para que Putin continue a fraudar eleições enquanto mantém o gás fluindo.

O contraponto parte de setores da direita europeia que veem na Rússia um parceiro contra a imigração e o “globalismo”. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) emitiu um comunicado no qual afirma que “as eleições russas foram limpas dentro dos padrões do país” e que “a Alemanha deveria parar de interferir nos assuntos internos da Rússia”. O deputado do AfD, Jürgen Braun, em entrevista à Rádio Phoenix, defendeu que “a democracia russa é diferente, mas legítima”. Essa visão, embora minoritária, ganha tração entre eleitores que se sentem abandonados pela elite de Berlim.

Para o liberalismo clássico, não há democracia sem dissidência, sem imprensa livre e sem eleições fiscalizáveis. A Rússia de 2024 é um regime autoritário com verniz eleitoral. A Alemanha, que já foi exemplo de reconstrução democrática, corre o risco de se tornar cúmplice por omissão. Como escreveu o filósofo alemão Ralf Dahrendorf, “a liberdade não é um estado, é um processo”. E esse processo, na Rússia, foi encerrado a força.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.